Vivemos
a era das falsificações. Da falsificação de produtos. Da
falsificação da verdade. Da falsificação de pessoas. Vivemos a
era da coisificação do ser, do botox, dos implantes,
da cirurgia plástica, do sampler, do meme, do kitsch; da
quantificação, dos números, das estatísticas; da banalização da vida, das relações falidas, dos
desejos insossos, dos sentimentos vagos; da violência, do vale tudo, da futilidade, da estupidez, das coisas sem sentido. De um
tempo que reflete a experiência do que não vivemos. O tempo da indiferença. Da morte do afeto.
Curtimos
coraçõezinhos, estrelinhas, cubinhos de gelo. Curtimos. Vivemos a
era da adjetivação, da não verbalização. Não sabemos amar, aproximar, conquistar, envolver, cultivar, dedicar. Talvez sejam
(d)efeitos da globalização. Talvez não. Mas é fato que a era
romântica acabou. Há muito. É provável que a geração de
nossos avós tenha sido a última que conheceu o amor em sua
plenitude. Quanto a nós, somos não mais que reféns da nossa
irreflexão, da nossa impotência, da nossa incompetência.
Foi-se
o tempo em que éramos felizes. Tempos idos da adolescência, em que depois das aulas percorríamos os sebos de
discos, no centro da cidade, à cata de alguma joia intocada. Tempo
em que as lojas do Bob's eram parada obrigatória e o Big Bob ERA um
BIG BOB: bastava a primeira mordida para que o molho se espalhasse em
nosso rosto e um sorriso nos invadisse a alma. A felicidade estava
nas coisas simples.
Foi-se
o tempo em que nos deliciávamos ao sabor de um Chokito, aquele com
leite condensado, caramelizado, com flocos crocantes e chocolate
Nestlé; o tempo das bicicletas Monark Black Tiger, do guaraná Taí,
do bafo-bafo com figurinhas, do futebol de botões, da Vila Sésamo,
do Carequinha, do Capitão AZA, dos Trapalhões, da Bruna Lombardi,
da Farraw Fawcet, da Linda Carter, da Janete Clair, do Dias Gomes, do
Cassiano Gabus Mendes, da Paula Saldanha, do Globinho Supercolorido e
do "zing pow! do cinto de inutilidades".
Foi-se
o tempo em que passávamos duas ou três sessões consecutivas, à
tarde, namorando nos cinemas (qual era mesmo o nome do filme?).
Foi-se o tempo em que passeávamos de mãos dadas com nossas namoradas pela praça Saenz
Peña e tomávamos um sorvete no Rick ou um café no Palheta. Tempo
em que íamos à padaria do "seu" Joaquim, pontualmente às
15 horas, para comprarmos aquelas bisnagas quentinhas que
devorávamos com manteiga derretida.
Foi-se
o tempo de Coca-Cola é isso aí, de O mundo trata melhor quem se
veste bem, de Bonita camisa, Fernandinho!, de Não se esqueça da
minha Caloi!. Foi-se o tempo em que ficávamos loucos para descobrir
o "endereço do cachorrinho" das Casas Tavares. Foi-se o
tempo do inesquecível Carlos Moreno, o mais genial garoto-propaganda
da TV e da publicidade no Brasil. Foi-se o tempo em que as meninas
aprendiam que O primeiro Valisére a gente nunca esquece.
Foi-se
o tempo em que jogávamos bola na rua, nos finais de semana. Foi-se o
tempo em que, durante a semana, jogávamos futebol ANTES da escola e
adentrávamos a sala de aulas totalmente suados, sujos, fedorentos,
mas não estávamos nem aí, porque aquela era simplesmente a melhor
época de nossas vidas. E nem fazíamos ideia.
Foi-se
o tempo em que as relações eram desinteressadas e honrávamos o correto. Foi-se o tempo em que acreditávamos. Foi-se o tempo em que éramos felizes.
Texto adaptado do Editorial originalmente publicado na edição
impressa n° 38 de Intervalo Entretenimento & Mídia, ano VII, em
Mai/Jun 2005.
Agradecemos
ao Paulo Joubert Alves de Souza, editor do Cine HQ, de Belo
Horizonte/MG, pela recuperação do texto.
Revisto em 01.01.2026




