sábado, 4 de março de 2017

"GATINHO BONITINHO (SÓ QUE NÃO...)", DE FRANCISCO FILARDI



Foi Madame Filardi quem trouxe a novidade (para variar). Uma de suas amigas, a Jajá, é louca por gatos. Não, leitor, você não entendeu. Onde se lê louca por gatos, leia-se daquelas que beijam, abraçam, mordem, apertam bochechas, dão colinho e ninam os tais como se bebês fossem.

Se essa devoção aos felinos se restringisse ao âmbito doméstico, vá lá. Mas a sandice da Jajá ultrapassa os limites do bom senso. Em seus habituais passeios vespertinos, por exemplo, chega a interromper os passos, a cada cinco ou dez metros, só para acariciar algum felino que se lhe meta no caminho, um suplício para quem se atreve a acompanhá-la. Os vizinhos juram que ela perdeu os parafusos (todos); os parentes, então, fugiram faz tempo! Os chamegos nos bichanos são tão exagerados que é impossível os passantes ignorarem a cena: - "Que melação! Que nojo!", comentam.

Madame diz que a louvação excessiva é só a ponta do iceberg, já que pela cabecinha da sua amiga festeira passam ideias para lá de modernosas (por conta dos tais parafusos perdidos...). E não é que ela, aos 63 de idade, resolveu cursar uma faculdade?

Pois é. Mas tudo ia bem, sejamos justos: Jajá era aplicada, não faltava às aulas, tirava boas notas; enfim, era uma autêntica CDF. Só mesmo lá pelo terceiro período, quando um professor de "História de não sei do quê" pediu à turma um trabalho em grupos, é que a coisa desandou. O grupo de Jajá incluía a Beneplácida, o Marcondes e o Malaquias, este destacado para receber os colegas numa primeira reunião do grupo, na qual dividiriam responsabilidades e tarefas.
Mas havia um porém nessa brincadeira. Malaquias, que também era fã de felinos, tinha no apartamento um vira-latas brabo que só! Não, leitor, você não entendeu (de novo). O gato do Malaquias não é daqueles que se intimida com um estranho em seu terreno e corre para debaixo da cama. Na-na-ni-na-não! Ele é Dom Gato Corleone, em pessoa! Como quem nada quer, põe-se diante do intruso, apoia-se nas patas dianteiras e o encara como quem diz: - E aí, brou, o que é que tá pegando?. Beneplácida e Marcondes, que já haviam visitado o Malaquias em outras ocasiões, não davam a menor bola para o bicho (por isso, entendiam-se, cada um no seu canto), mas sabiam que o gato do anfitrião não vivia só da fama. O problema, eis a questão, é que ninguém ali avisou a Jajá.

No dia combinado para aquela que seria a primeira reunião do grupo, o bafafá se deu logo à entrada do apartamento do Malaquias, nas saudações e cumprimentos. Afoita, Jajá se inclinou para, digamos... cumprimentar o gato - que, com certo cinismo, já se enroscava nas pernas do dono. Pensando tratar-se de uma graça do felino, Jajá não economizou no tatibitati:

- Que gatinho gostosinho! Que cheirosinho! Que fofinho! Que bonitinho! Que...

Bem, era natural, depois de tantos que no início das frases, que o tempo fechasse (pelo menos, na opinião do gato, que detestava exclamações!). Bigorna (!), o tal do gatinho bonitinho, abaixou as orelhas, eriçou pelo e bigodes, esticou o rabo e encarou Jajá todo encrespado, enquanto desprendia um miado tão agudo que fez arrepiar até os cabelinhos do... fiofó da idosa. Para completar o serviço, o bichano malvadão partiu para cima da velhota, desferindo-lhe quatro arranhões nada discretos, entre a orelha e o olho esquerdos, para que ela não mais se atrevesse a bajular quem não conhece. Horrorizada, Jajá disparou, em severo galope, pelo corredor do prédio.

- Valha-me, Deus! Gatinho mau! Gatinho mau!* - gritava, enquanto Beneplácida, Marcondes e o próprio Malaquias assistiam à cena, às gargalhadas.

Moral da história: só de pensar na desventura da amiga, Madame Filardi chora (de tanto rir)!



* A citação Gatinho mau! é uma homenagem à escritora Ciça Silveira, que imita, como ninguém, a saia justa da dona Jajá.

de Francisco Filardi, finalizado em 04/03/2017.

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