quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

PEDIATRA JUNIA CAJAZEIRO RELATA SUA EXPERIÊNCIA NO "MÉDICOS SEM FRONTEIRAS"

 Junia Cajazeiro
Junia Cajazeiro (Pediatra)

- Posso te dar um presente?
 - Mas por que um presente?
 - Primeiro me diz: você aceita um presente?
 - Olha, não precisa...
- Mas eu quero te dar. Eu trabalho com aura, você sabe o que é aura?
- Sim, eu sei.
- Então, você tem a aura bonita. É por isso eu quero te dar um presente. Sabe, desde quando eu cheguei aqui, você foi a primeira pessoa que me olhou nos olhos e tratou bem meus filhos. Eu não queria estar morando na rua. Eu não queria estar aqui. Eu queria estar na minha casa, mas eu não posso... (Lágrimas nos olhos. De nós duas).
- Eu vi que você gosta deste olho (apontando para meu pingente de olho grego). Ele dá proteção. Então eu vou te dar esta pulseira. Eu que fiz de macramê.

Essa é uma das muitas histórias que vivi com MSF: pacientes e suas famílias, passando por dificuldades que eu espero jamais sentir na pele. A dimensão do que é sair da sua casa, do seu país, em busca de comida, medicamentos, um mínimo de qualidade de vida. Fugir nunca foi uma opção para eles: era uma necessidade. Atendi vários casos como esse e é incrível perceber o quanto isso vai nos rasgando aos poucos, devagarinho. Uma dor quase imperceptível, mas presente o tempo todo: nas discussões de casos, na hora do almoço, nos nossos momentos livres. 

E somente agora, ao sair do projeto, me permiti sentir essa dor. Assim como no dia em que, ao perguntar a um menino de 3 anos de idade onde ele sentia dor, sua resposta foi, baixinho no ouvido da mãe para que eu não ouvisse, “a barriga, mãe, tenho fome”. Fui saber que eles não comiam desde o dia anterior, pois não chegaram a tempo no local de distribuição de comida. Também não conseguiram alimentos (frutas das árvores nas ruas) naquela manhã, porque a mãe tinha medo de perder a consulta comigo.

São muitas histórias, muitos sentimentos misturados e a certeza de que temos muito a fazer.

 
Uma vez me perguntaram se nessa vida de trabalho humanitário, com tantas idas e vindas, a gente se acostuma com despedidas. A cada vez que me despeço, de casa, dos amigos de sempre, da família e depois dos amigos e pacientes que fiz no projeto, essa pergunta reaparece na minha cabeça. E a resposta sempre foi não. Não me acostumei a me despedir. É sempre um sentimento misto de alegria por retornar à minha casa ou de iniciar um novo projeto e o coração apertado, de deixar família, amigos, cachorro ou a equipe e os pacientes. 

Sempre pensamos que podíamos ter feito mais. Dá um certo incômodo ao pensar que aquelas pessoas que se fizeram tão especiais e presentes na sua vida serão boas lembranças, mas talvez nossos caminhos não se cruzem mais. Dessa vez não podia ser diferente: me despedi há pouco do projeto e da cidade de Boa Vista.

Quase que como num ritual, fui me despedir daqueles pacientes que de certa forma me marcaram. Estava atendendo no centro de saúde local e também fiz alguns atendimentos em abrigos para refugiados venezuelanos que temos na cidade. Boa Vista tem 11 abrigos oficiais e muitas ocupações espontâneas de venezuelanos que vieram em busca de melhores condições para sobreviver.

Em um desses atendimentos nos abrigos, fui a Pintolândia, que é o abrigo para a população migrante indígena na cidade. Lá, conheci Maria Isabel. Menina linda que estava com muitas lesões de pele infectadas. Se sentia envergonhada porque as lesões eram grandes e se espalhavam por todo o corpo, o que a incomodava. Tive de tratá-la com medicamentos mais fortes e nesse tratamento ficamos próximas, pois acompanhei de perto sua evolução. Então, decidi ir no abrigo para me despedir.

Cheguei lá e ela estava dormindo. A vi deitada em sua rede. O senhor que me acompanhava queria acordá-la. Falei que não precisava. Segui para ver outros pacientes e falar com algumas pessoas. Quando estava saindo do abrigo escuto um grito: "olá, dotôra!". Claro que reconheci sua voz. Olho para trás e lá estava ela, sorridente com um vestido novo. Me aproximei, ela me mostrou seu vestido e conversamos um pouco. Contei para a mãe dela e a ela que estava indo embora. A mãe dela me olhou e falou: "Isabel, agradece a dotôra!" Isabel veio e me deu um abraço e um beijo. Para mim nunca será fácil me despedir. Isabel ficará em minha memória, assim como muitos outros pacientes, dos quais me recordo e fico imaginando como devem estar.

Minhas crianças pelo mundo.

fonte: publicado no site "Médicos sem Fronteiras", em 14/11/2019

sábado, 11 de janeiro de 2020

CHAPLIN, MAGNÍFICO

Resultado de imagem para Imagens Charles Chaplin 


"Nada é tão belo a ponto de fazer as pessoas se esquecerem de seus ovos e bacon no café da manhã; quanto à admiração do mundo, isso não vale nada, pois no final só há você mesmo a agradar: você faz tudo aquilo porque significa algo para você.  Trabalha porque tem uma superabundância de energia vital.  Descobre que, além de fazer filhos, também pode se expressar de outros modos.  No fim, é você - só você -, seu trabalho, seu pensamento, sua concepção do belo, sua felicidade, sua satisfação.  Seja corajoso o bastante para encarar o véu e levantá-lo, e veja e conheça o vazio que ele esconde, e fique diante desse vazio e saiba que dentro de você está o seu mundo..."

(Charles Spencer Chaplin, em 1922 - fragmento extraído do vol. 2 da Coleção Folha Charles Chaplin - "Dia de Pagamento" e outros 4 curtas), publicado em 2012, pág. 25).

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

S.O.S AUSTRÁLIA

                                      foto: Saaed Khan (AFP)


O incêndio que atinge a Austrália desde setembro de 2019 já tirou a vida de 23 pessoas, assim como a de cerca de 300 ursos coalas da ilha Kangaroo.  O fogo se alastra por uma área de cerca de 10 mil quilômetros quadrados, seis vezes maior que o estado de São Paulo.  Há desabrigados e muita fumaça em Sydney, Queensland e Byron Bay.  

A situação é crítica de tal modo que a fumaça dos incêndios está chegando à Argentina e ao Chile.

No dia 04/01/2020, o site do Yahoo Notícias divulgou a triste imagem de um filhote de canguru carbonizado, preso a uma cerca da qual não se conseguiu desvencilhar enquanto fugia, nas colinas da cidade de Cudlee Creek.


Vejam de que forma é possível ajudar os necessitados: 




Para assistência e apoio psicológico aos desabrigados.  Doações de qualquer valor podem ser feitas por meio de cartões de crédito. 




A entidade oferece alimentos, roupas e demais itens para aqueles que perderam tudo nos incêndios.  Doações de qualquer valor podem ser feitas por meio de cartões de crédito ou pelo Paypal.




Oferece refeições aos desabrigados e àqueles que atuam no combate às chamas.  Doações de qualquer valor podem ser feitas por meio de cartões de crédito ou débito e também pelo Paypal. (Se for doação única, escolher a opção "once-off".



A WIRES auxilia no resgate de animais feridos.  Doações pelo Facebook.




A entidade vem cuidando dos animais atingidos pelos incêndio.




Doações para a ONG podem ser feitas a partir de dois dólares.  Doações mensais, a partir de quinze dólares.



fontes: Folha de São Paulo, O tempo, site Hardcore

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

ELES TÊM MUITO O QUE APRENDER? SÉRIO?!



MAMÃE, EU VOU JOGAR NO TAITI!

A Copa das Confederações realizada no Brasil, de 15 a 30 de junho de 2013, recebeu, além da seleção brasileira (participante na qualidade de anfitriã do torneio), as seleções da Espanha, do Japão, do México, do Uruguai, do Taiti, da Itália e da Nigéria, campeãs em suas respectivas Confederações (regiões ou continentes).

A seleção brasileira ficou com o título, derrotando na final a Espanha, campeã do Mundo de 2010, pelo placar de 3 a 0. Mas o fato mais curioso e interessante dessa competição se deu ao término da fase de classificação do grupo B, em que figurava o modesto selecionado do Taiti e as seleções da Espanha, do Uruguai e da Nigéria. O Taiti, equipe amadora* campeã da Copa das Nações da OFC em 2012, chegou ao Brasil como representante da Oceania, não obtendo êxito em sua participação: foi derrotado na estreia pela Nigéria por 6 x 1 (no dia 17/06, no Mineirão, em Belo Horizonte); para a Espanha, por 10 x 0 (no dia 20/06, no Maracanã, Rio de Janeiro); e, finalmente, para o Uruguai, por 8 x 0 (em 23/06, na Arena Pernambuco, em Recife).

Apesar das goleadas sofridas e da inevitável desclassificação, a seleção do Taiti não apelou para o antijogo, ou seja, não agrediu os adversários com faltas desleais ou desnecessárias. Para ilustrar, em toda a competição foram distribuídos 51 cartões, sendo 18 amarelos e 33 vermelhos, sendo o número de cartões vermelhos elevado para um torneio com apenas 10 jogos (3 partidas classificatórias em cada um dos grupos, A e B; 2 partidas semifinais, a final e a disputa de terceira e quarta colocações). A seleção do Taiti recebeu apenas dois cartões amarelos (Ludivion e Chong Hue) e um vermelho (Ludivion, em decorrência do segundo cartão amarelo), todos na última partida, diante do Uruguai, mas é bom que se observe: as faltas cometidas não se deram por comportamento violento e, sim, por circunstância normal de jogo. Pela postura da equipe em campo, a participação do Taiti no torneio angariou a simpatia dos torcedores brasileiros e, sem dúvida, foi uma das maiores demonstrações de fair play já vistas em terras tupiniquins.

Triste mesmo foi ouvir de um conhecido narrador do grupo Globo/SporTV o comentário de que “Eles (o Taiti) ainda têm muito o que aprender”. Como assim, “eles” têm que aprender? E quanto a nós? Lembram o que os jogadores da seleção brasileira fizeram no Estádio do Mineirão em 08/07/2014, depois de tomarem uma ensaboada de 7 x 1, da Alemanha, na Copa do Mundo sediada no país? Pois é. A pergunta é: por que razão os jogadores brasileiros não reconheceram a superioridade alemã e cumprimentaram seus adversários? Não nos caberia reconhecer (mesmo) o fiasco e demonstrar um pouco da nossa “boa educação”? Ou só nos devemos dar contar da nossa (discutível) educação quando vencemos?

A questão tem menos a ver com esporte e mais a ver com a orientação que se inicia no berço e é delineada e costurada ao longo da nossa existência, até o fim de nossos dias. No caso da educação no esporte, assim como em outras esferas do relacionamento humano, a ideia do “vencer, vencer, vencer” (sem qualquer relação com o conhecido verso do hino do Clube de Regatas do Flamengo) nos passa a enganosa ideia de que ser o primeiro é a única condição, a única premissa e o que vem abaixo disso não nos serve e, portanto, não deve ser valorizado. Mas esse pensamento é falho, não tardando aos mais atentos perceber que nossa educação (não só) para o esporte é altamente deficitária. E isso não é de hoje. A própria Copa do Mundo de Futebol, ao longo de sua história, desde a sua primeira edição, disputada no Uruguai, em 1930, contém relatos de violência em campo (e fora deste, claro), partidas com resultados duvidosos, atuações questionáveis de árbitros e conquistas ilegítimas (considerando-se a ética, a prática saudável do desporto e o princípio da igualdade de condições).

O fato é que necessitamos de rever urgentemente as nossas escalas de valor. No Brasil, há uma grave tendência a invertermos (ou subvertermos) a ordem natural do que é prioritário ou relevante.

Obrigado, Taiti, por nos lembrar disto.

__________

* Na seleção do Taiti, apenas o atacante Marama Vahirua era jogador profissional, defendendo o Pantharakikos F.C., clube da cidade de Komotini, fundado em 1963 na região da Trácia, na Grécia.

(Francisco Filardi)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

PRÉDIO QUE APRESENTAVA RISCO PARA TRANSEUNTES NA REGIÃO PORTUÁRIA DO RIO DE JANEIRO FINALMENTE VAI AO CHÃO


Essa construção, situada na esquina da avenida Venezuela e rua Souza e Silva, na região portuária do Rio de Janeiro, teve a contenção parcialmente destruída pelos severos temporais de outubro. Do prédio, há muito abandonado, restou o esqueleto que apresentava sério risco para os transeuntes.

Uma de suas quinas exibia rachadura de alto a baixo, como vemos na imagem seguinte, e a malha que, na teoria, deveria isolar a fachada, não seria suficiente para conter um iminente desmoronamento.   No encontro da rua com a avenida, há duas faixas para pedestres situadas na mesma calçada.


Só nos primeiros dias de dezembro deu-se início à tarefa de levar o prédio ao chão. 

Finalmente, na quinta-feira, dia 13/12/2019, um dia após a publicação deste post, o prédio foi inteiramente demolido e o terreno, agora totalmente limpo, está desimpedido para receber uma nova construção.


fotos: Francisco Filardi

domingo, 10 de novembro de 2019

FIFA 19: MAIS DO MESMO, SÓ QUE UM POUCO PIOR...


Desde seu lançamento em 1994, ainda sob o título FIFA Soccer, o game de futebol para computadores e plataformas multimídia Nintendo, Playstation e XBOX, desenvolvido pela Electronic Arts (EA), vem passando por reformulações anuais, algumas bem sucedidas outras nem tanto. Joguei quase todas as edições do título para Playstation e ainda que isso não me faça especialista no jogo desejo tecer alguns comentários tardios acerca de minha experiência com o FIFA 19.

Lançado na última semana de setembro de 2018, o FIFA 19 não trouxe mudanças significativas em relação ao FIFA 2018. O arranjo do menu inicial do jogo é muito próximo do de seu antecessor. Novidade mesmo só o terceiro e último capítulo da novelinha interativa "A jornada" (que acompanha a carreira do jogador fictício Alex Hunter desde seus primeiros passos no esporte), as regras alternativas e o modo Division Rivals (que não é exatamente uma novidade e sim um substituto das temporadas on-line).

No que tange à jogabilidade, os iniciantes esbarrarão em alguns pontos críticos. Listei alguns os quais considero determinantes para fazer o jogador manter-se admirador da franquia ou debandar para a concorrência.

O primeiro ponto crítico do FIFA 19 é que os zagueiros adversários quase sempre se antecipam aos lançamentos longos feitos pelo usuário. O ideal é optar pela troca de passes curtos, mas, ainda assim, o usuário terá dificuldades no domínio da bola. Logo que o FIFA 19 foi introduzido no mercado brasileiro, as equipes adversárias (controladas pela CPU) faziam uma jogadinha manjada com lançamentos longos e avanço rápido de seus jogadores de ataque, sobretudo pelas pontas e sempre nas costas dos laterais do usuário, uma situação difícil de conter. Apesar de a EA tentar corrigir o problema por meio de patches (programas de ajuste), nas semanas seguintes, o problema não foi solucionado de forma satisfatória. No modo carreira, tal situação se verifica de forma ainda mais grave: os jogadores do time escolhido pelo usuário não ganham dos adversários nas corridas defensivas, ou seja, seu poder de recuperação é mais lento que o dos adversários, sendo difícil para o usuário conter um contra-ataque, um cruzamento ou mesmo a conclusão para o gol (já havia lido crítica semelhante em relação ao NBA Live 2018, título de basquete retomado pela EA após 8 anos de ausência).

FIFA 19 não é um jogo equilibrado, podendo ser cansativo ou mesmo irritante para usuários ocasionais. Os passes e lançamentos, mesmo a curtas distâncias, são imprecisos. Além do que o usuário faz esforço demasiado para enfrentar adversários que tocam a bola se valendo de tabelas rápidas, mesmo nos níveis de dificuldade mais baixos. Durante as partidas, comandar a troca de jogador para a marcação do adversário que está com a posse da bola também é demorada e qualquer desperdício de tempo pode resultar num contra-ataque. Mesmo sem qualquer refinamento nas configurações do jogo, o usuário sofre com a marcação rígida: há dificuldade para alcançar a meta adversária, enquanto os jogadores da equipe oponente levam menos de um minuto para ficar cara a cara com o gol do usuário.

Quando de posse da bola, os jogadores do usuário não avançam no campo adversário, dependendo do esquema tático (sobretudo no modo carreira, quando o usuário não tem controle sobre o técnico do time): ficam quase na mesma linha dos jogadores de defesa adversários (tornando quase impossíveis os lançamentos longos) e, também por essa razão, não os superam na corrida. Outro problema é a realização de tabelas pelo usuário que, nem sempre rápidas, resultam em jogadores frequentemente na posição de impedimento.

Na parte defensiva, nem sempre os zagueiros do usuário pulam na pequena área, com os atacantes adversários, a fim de interceptar as bolas aéreas; ou seja, o risco de sofrer gols ridículos (e igualmente irritantes) é considerável. Os goleiros (que nas versões mais antigas consistiam num dos problemas críticos da franquia), mesmo com o desempenho melhorado nessa versão mostram dificuldade para deixar a pequena área e interceptar eventuais cruzamentos ou escanteios.

Da mesma forma que seu antecessor, FIFA 19 apresenta sérios bugs na comemoração dos gols. Não raro, o usuário vê o braço de um jogador passando pelo peito de outro e por aí vai. Ainda sobre comemorações, há cenas repetidas à exaustão, a exemplo daquelas em que o artilheiro corre para a marca de escanteio e chuta a haste da bandeirola. Há opção de variar as comemorações, mas não é o que um usuário mediano costuma fazer. Essa variação deveria ser automática.

Outro problema histórico do FIFA é a arbitragem. A equipe do usuário sofre faltas acintosas não assinaladas pela arbitragem, mas se algum de seus jogadores somente "esbarrar" num adversário, o árbitro interrompe a partida. O FIFA deveria disponibilizar uma forma de o usuário regular a rigidez do trio de arbitragem.

As cobranças (de tiros livres diretos) próximas à meta adversária, de algumas edições do jogo para cá, tornaram-se um suplício. Por mais que o usuário pratique nos treinamentos, é raro acertar uma cobrança com precisão. Em outras edições, como na de 2005, o FIFA dispunha de um mecanismo de cobrança em que bastava ao usuário indicar a direção do chute e pressionar o botão de disparo uma primeira vez até a barra de intensidade ficar na cor verde (se esta alcançasse as cores laranja ou vermelha, o chute se distancia da meta adversária). Feito isso, caberia ao usuário pressionar o botão de disparo uma segunda vez, para, aí sim, efetuar a cobrança da falta. Era um procedimento simples e de melhor precisão, não raro resultando em golaços com a bola entrando onde “a coruja faz seu ninho”.

Outro ponto negativo do FIFA 19 é que vários jogadores de ataque da equipe do usuário correm na mesma direção quando o goleiro adversário está para cobrar um tiro de meta; da mesma forma, quando o usuário está de posse da bola, no ataque e em direção à meta adversária, um dos jogadores do usuário se antecipa à trajetória da bola podendo interceptá-la e atrapalhar o lance.

A narração de Tiago Leifert e os comentários de Caio Ribeiro são praticamente os mesmos da edição 2018, o que torna o jogo cansativo após algumas horas de jogo (uma das melhores narrações da franquia era a mexicana, por conta de Henrique "perro" Bermúdez e Ricardo Peláez, infelizmente excluída das versões do FIFA tupiniquim a partir de 2013).

Mais um ponto crítico do FIFA 19 pode ser verificado no modo “carreira - jogador”. Os jogadores personalizados (criados pelo usuário) são preteridos pelos técnicos (não controlados pelo usuário nesse modo). Dependendo da equipe que defendem, esses jogadores criados são frequentemente substituídos no intervalo ou no início do segundo tempo das partidas, ainda que participem dos treinamentos, recebam nota de desempenho elevada ou mesmo sejam artilheiros da competição. Em alguns casos, a situação é tão irritante que a saída é solicitar sua venda ou empréstimo (o que também não é garantia de solução do problema).

A dificuldade de a EA manter os contratos com os clubes brasileiros a cada edição do jogo resulta em equipes genéricas, preservando apenas as camisas e os distintivos mas não os nomes e características dos jogadores oficiais. Até a seleção brasileira tornou-se genérica, o que, para nós, brasileiros, é vergonhoso. Na edição 2018, Corinthians e Flamengo debandaram para o concorrente Pro Evolution Soccer (PES), da japonesa Konami. Na versão 2019, Vasco, São Paulo e Palmeiras também aderiram à debandada (a versão 2020, recentemente lançada, trará, além dos listados, Atlético Mineiro, Ceará e Fortaleza).  Em face dessa dificuldade, a EA poderia facultar aos usuários a edição dos nomes dos jogadores.

O FIFA 19 chegou ao mercado brasileiro em duas versões físicas: a “standard”, lançada no final de setembro/2018, como disse, e a versão especial "Champions League", cerca de um mês depois. Os usuários que aguardaram o lançamento da versão física "Champions" levaram prejuízo porque os bônus oferecidos aos usuários que optaram pela aquisição antecipada do jogo (via download on-line) findaram em 14/10/2018. Esses bônus consistiram em pacotes de jogadores oferecidos por determinado número de semanas, empréstimo de grandes jogadores (a exemplo de Cristiano Ronaldo) e outros itens. Ou seja, os usuários que optaram por baixar o jogo on-line, além de adquiri-lo por preço promocional, tiveram vantagem na obtenção dos benefícios extras, o que necessita de ser revisto pela EA. Quando recebi a versão "Champions League", em 28/10/2018, meu código de acesso a tais benefícios já havia expirado há duas semanas. Telefonei para a EA no Brasil, que me aconselhou absurdamente a trocar o jogo na loja onde o adquiri, sendo que falávamos de coisas distintas. Ora, a loja só vende o produto e nada tem a ver com as regras de seus desenvolvedores. Está claro que o problema é da PSN (Playstation Network) ou da EA. Quem gera esses códigos? Por que não extendem o prazo desse "pacote de benefícios" por alguns meses?

Os níveis de dificuldade do jogo foram escalados da seguinte forma: principiante, amador, semipro, profissional, internacional, lendário e ultimate. À medida que a dificuldade aumenta, a capacidade de reação dos jogadores do usuário torna-se mais lenta (sobretudo no jogo contra a CPU). Quanto ao modo ultimate, esqueçam, é impossível jogá-lo. Por que criar uma dificuldade na qual ninguém consegue jogar? Eis outro ponto a ser revisto pela EA.

Por fim, o FUT (Ultimate Team) é o modo onde usuários medianos, na esperança de montar equipes competitivas, gastam seu dinheirinho real para adquirir pacotes com jogadores igualmente medianos e outros itens de qualidade duvidosa. Trocando em miúdos, é o modo no qual a EA fatura seus milhões. O problema crítico do Ultimate Team é que tudo o que o usuário construiu ao longo de um ano de jogo se perde. O usuário só leva para a edição seguinte seus pontos de experiência, o que não é lá grande benefício. Outra situação que deveria ser repensada é a forma de utilização desses pontos de experiência. A EA só disponibiliza alguns jogadores para empréstimo e itens para serem aproveitados nos modos carreira, on-line e FUT (como bolas customizadas, uniformes clássicos dos grandes clubes da Europa etc) mas esses itens não são renovados periodicamente.

Para jogadores eventuais ou não habilidosos, além do desagradável desafio de jogar contra os “maceteiros” on-line, é raro conseguir jogadores acima da média nos pacotes do Ultimate Team. Se o usuário for um “heavy user”, só ao final de uns 4 ou 6 meses disporá de uma equipe de razoável para boa (se optar por não gastar dinheiro real, claro). Mas, é bom que se registre: nem mesmo gastando dinheirinho real há garantia de que o usuário receberá jogadores renomados ou de técnica e habilidades apuradas para a sua equipe. E, ainda que o consiga, a notícia triste é que essa equipe tem data certa para acabar.

Não é que a franquia FIFA tenha-se tornado ruim, mas de alguns anos para cá tem se assemelhado ao antigo fusquinha da Wolkswagen: a cada ano, introduz um farolete de seta aqui, a posição do duto para gasolina ali etc, para dizer que é o "lançamento do ano".

Minha dica é: seja paciente e não adquira o jogo logo que chegar ao mercado. Aguarde por alguma eventual promoção na Black Friday (que ocorre em novembro, cerca de um mês após o lançamento do FIFA) e leia as críticas de revistas segmentadas para só então tentar a sorte com uma nova versão do jogo.

(Francisco Filardi)

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

CAIXA CULTURAL RIO RECEBE RETROSPECTIVA CINEMATOGRÁFICA DE DOMINGOS OLIVEIRA


 Com curadoria de Fernanda Teixeira e Renata Paschoal, mostra reúne 14 filmes do ator, roteirista e diretor carioca, morto em março, aos 82 anos

A CAIXA Cultural Rio de Janeiro recebe, de 2 a 10 de novembro, a mostra Domingos. Com curadoria de Fernanda Teixeira e Renata Paschoal, a retrospectiva apresenta um painel com o que há de mais significativo na obra do cineasta carioca Domingos Oliveira, morto em março, aos 82 anos. São 14 longas-metragens, exibidos em formato digital, além de uma leitura dramatizada, um debate e um bate-papo. O projeto tem patrocínio da CAIXA e do Governo Federal.
A programação reúne marcos da carreira de Domingos Oliveira (1936-2019), como os filmes Todas as mulheres do mundo (1966), Separações (2002) e Amores (1998). “Mas o público também poderá conferir Aconteceu na quarta-feira (2018), inédito no circuito comercial. E tem o importante documentário Domingos (2009), de Maria Ribeiro”, destaca a cineasta Fernanda Teixeira. Um catálogo com fotos e texto inéditos será distribuído gratuitamente para quem comparecer a pelo menos três sessões.

Cinema, teatro e televisão
Domingos Oliveira talvez tenha sido o único artista brasileiro a ter uma carreira de destaque em três meios distintos: cinema, teatro e televisão. Ao longo de mais de 60 anos de atuação, Domingos escreveu 28 peças, dirigiu 63, publicou seis livros, lançou seis traduções, dirigiu 19 longas-metragens e participou de quase 50 telefilmes, como roteirista ou diretor. Seus filmes costumavam ser produzidos a partir de suas próprias peças teatrais, mas se destacaram pelo domínio da linguagem cinematográfica.
O cinema de Domingos Oliveira evita excessos de produção, afasta-se do tecnicismo e é realizado por um grupo de atores quase fixo, que trabalha também na criação dramatúrgica”, explica Renata Paschoal, produtora e parceira de trabalho do cineasta por mais de 15 anos. “Muitas vezes Domingos se valia da própria vivência como material de partida para a recriação dramatúrgica, mas seus filmes vão muito além da autobiografia, eles compõem painéis da nossa época”, completa.

Atividades extras
A mostra terá uma série de atividades extras. A Sessão acessibilidade, por exemplo, vai exibir o filme Aconteceu na quarta-feira com audiodescrição (em 5 de novembro) e tradução em Libras (em 8 de novembro). No dia 5 de novembro, após a exibição de Carreiras (2005), haverá ainda um debate sobre cinema independente.

 Feminices
 
No dia 7 de novembro, a sessão de Feminices (2004) será seguida de um bate-papo com atrizes que atuaram em filmes de Domingos. Já no dia 9 de novembro, após a exibição de Amores, a atriz Maria Mariana, filha do cineasta, fará uma leitura dramatizada do texto do pai Duas ou três coisas que eu sei dela, a vida.


Programação
2 de novembro (sábado)


Todas as mulheres do mundo
 
14h - Todas as mulheres do mundo (1966), de Domingos de Oliveira, Brasil, 86 min, Digital, 14 anos
15h45 - Separações (2002), de Domingos de Oliveira, Brasil, 116 min, Digital, 14 anos
18h - Juventude (2008), de Domingos de Oliveira, Brasil, 81 min, Digital, 12 anos

3 de novembro (domingo)
14h - Vida, Vida (1977), de Domingos de Oliveira, Brasil, 59 min, Digital, 12 anos
15h30 - Paixão e acaso (2013), de Domingos de Oliveira, Brasil, 84 min, Digital, 12 anos
17h30 - Primeiro dia de um ano qualquer (2012), de Domingos de Oliveira, Brasil, 86 min, Digital, 12 anos

5 de novembro (terça-feira)
13h30 - Aconteceu na quarta-feira (2018), de Domingos de Oliveira, Brasil, 70 min, Digital, 12 anos (Sessão acessibilidade)
15h - A culpa (1971), de Domingos de Oliveira, Brasil, 83 min, Digital, 16 anos
16h45 - Feminices (2004), de Domingos de Oliveira, Brasil, 72 min, Digital, 14 anos
18h30 - Carreiras (2005), de Domingos de Oliveira, Brasil, 72 min, Digital, 14 anos + debate Cinema independente

6 de novembro (quarta-feira)
15h - Amores (1998), de Domingos de Oliveira, Brasil, 95 min, Digital, 14 anos
17h - Domingos (2009), de Maria Ribeiro, Brasil, 71 min, Digital, 12 anos
18h30 - Aconteceu na quarta-feira (2018), de Domingos de Oliveira, Brasil, 70 min, Digital, 12 anos

 
7 de novembro (quinta-feira)
13h30 - Vida, Vida (1977), de Domingos de Oliveira, Brasil, 59 min, Digital, 12 anos
15h - Primeiro dia de um ano qualquer (2012), de Domingos de Oliveira, Brasil, 86 min, Digital, 12 anos
16h30 - Separações (2002), de Domingos de Oliveira, Brasil, 116 min, Digital, 14 anos
19h - Feminices (2004), de Domingos de Oliveira, Brasil, 72 min, Digital, 14 anos + conversa com as atrizes
 
                                                              Separações

8 de novembro (sexta-feira)
13h30 - Aconteceu na quarta-feira (2018), de Domingos de Oliveira, Brasil, 70 min, Digital, 12 anos (Sessão acessibilidade)
15h - As duas faces da moeda (1969), de Domingos de Oliveira, Brasil, 92 min, Digital, 14 anos
17h - Todas as mulheres do mundo (1966), de Domingos de Oliveira, Brasil, 86 min, Digital, 14 anos
19h - Edu coração de ouro (1967), de Domingos de Oliveira, Brasil, 85 min, Digital, 14 anos

9 de novembro (sábado)
14h - A culpa (1971), de Domingos de Oliveira, Brasil, 83 min, Digital, 16 anos
16h - Juventude (2008), de Domingos de Oliveira, Brasil, 81 min, Digital, 12 anos
18h - Amores (1998), de Domingos de Oliveira, Brasil, 95 min, Digital, 14 anos + Leitura de trechos de Duas ou três coisas que eu sei dela, a vida, com Maria Mariana

10 de novembro (domingo)
14h - Edu coração de ouro (1967), de Domingos de Oliveira, Brasil, 85 min, Digital, 14 anos
16h - As duas faces da moeda (1969), de Domingos de Oliveira, Brasil, 92 min, Digital, 14 anos
18h - Carreiras (2005), de Domingos de Oliveira, Brasil, 72 min, Digital, 14 anos

Serviço
Mostra Domingos
Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro - Cinema 2 (Endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro - Metrô e VLT: Estação Carioca)
Data: 2 a 10 de novembro de 2019
Horários: Consultar programação
Informações: (21) 3980-3815
Ingressos: R$ 6,00 (inteira) e R$ 3,00 (meia). Além dos casos previstos em lei, clientes CAIXA pagam meia.
Bilheteria: terça-feira a domingo, das 13h às 20h
Duração: Consultar programação
Classificação Indicativa: Consultar programação
Capacidade: Cinema 2 - 80 lugares (mais 3 para cadeirantes)
Acesso para pessoas com deficiência
Patrocínio: CAIXA e Governo Federal
 
Fonte: assessoria de imprensa da Caixa Cultural Rio 
www.caixacultural.gov.br   /   @caixaculturalrj

domingo, 27 de outubro de 2019

A APROVAÇÃO DOS PAIS, INDEPENDENTE DA IDADE


por Ciça Silveira*

Dos muitos filmes a que assisti, chama a minha atenção uma das últimas cenas do filme “O sexto sentido” (1999) em que o menino Cole relata para a mãe que sua avó falecida se orgulha da filha todos os dias.

Se prestarmos atenção, tal cena irá variar em muitos filmes, mas sempre com a mesma questão: se nossos pais se orgulham de quem nos transformamos ainda que não tenhamos realizado o que sonharam para nós.

Levaremos no peito essa dúvida e dor atroz, principalmente se na força e coragem de nosso caminho singular tivermos a certeza de que trilhamos o contrário do que nossos pais sonharam.

Levaremos a dúvida eterna: "será que conseguem me amar, apesar de tanta diferença?".

Creio que amar o diferente é doloroso para os dois lados: o orgulho daqueles que não abrem mão do que desejavam para o filho, julgando ser o melhor para este, e do outro lado, o filho que não perdoa o julgamento daqueles cujo maior papel seria o de acolher e de apoiar.

Essas intolerâncias criam abismos, julgamentos cruéis, dores emocionais desnecessárias, desabonos de condutas, palavras ásperas, competição sem sentido, desprezo e, finalmente, indiferença.

É triste para ambos os lados a indiferença.

Entretanto, observo que, quando o amor não fala mais alto que o orgulho e a razão, passamos anos esperando por um abraço de reconciliação, pela frase que acolhe e confirma o quanto (e se) somos amados, e que, seja como for, nossos pais se orgulham de nós por existirmos e por existirmos do nosso jeito: do jeito que nascemos para ser, do jeito que desejamos ser.

Que possamos enxergar nossos filhos como seres humanos diferentes de nós, com expectativas próprias e que possamos apoiá-los em suas decisões.

Que tenhamos a chance de ouvir que somos amados pelos nossos pais e de saber que nossas qualidades são vistas, admiradas e apreciadas.

O acolhimento na alma será libertação imediata para a leveza do amor familiar.

Ciça Silveira é graduanda em Psicologia.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

HERANÇA MALDITA

 Resultado de imagem para imagens Zorro Isabel Allende

"A infância é uma época desastrosa, cheia de temores infundados, como o medo de monstros imaginários e do ridículo.  Do ponto de vista literário, não tem suspense, já que, salvo exceções, as crianças são um pouco insossas.  Além disso, carecem de poder, os adultos decidem por elas e o fazem mal, inculcando-lhes suas próprias ideias equivocadas acerca da realidade, e depois os filhos tềm de passar o resto das suas vidas tentando livrar-se delas". 

(Isabel Allende em "Zorro - começa a lenda", 2006, Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, tradução de Elisa Amorim - pág. 105/106).