quinta-feira, 12 de julho de 2018

REVIVAL DO SERIADO WILL & GRACE GARANTE 3a. TEMPORADA PARA 2019 E 1a. TEMPORADA CHEGA AO BRASIL EM HOMEVIDEO EM AGOSTO DE 2018


Will & Grace, em suas 8 temporadas entre os anos de 1998 e 2006, foi uma das primeiras séries que levaram para a telinha questões sobre o mundo LGBT.  Trata-se de um dos grandes êxitos de audiência da rede NBC nos Estados Unidos (e também no Brasil), por valer-se da extraordinária e rara química entre os atores Erick McCormack (Will), Debra Messing (Grace), Megan Mullally (Karen) e Sean Hayes (Jack) que compartilharam a condição de protagonistas.  Com diálogos ágeis e humor inteligente, Will & Grace é uma das séries mais apreciadas da história da TV.

Em 2017, o elenco original da série, bem como seus criadores Max Mutchnik e David Cohan,  reuniu-se para um Revival (no Brasil, exibido pelo canal FOX), cuja temporada de reestreia conta com 16 episódios.  O box dessa primeira temporada do Revival será comercializado no Brasil a partir de 22/08/2018.

Assistam ao trailer oficial:

 
Em agosto de 2017, a revista Entertainment Weekly deu destaque ao retorno da série, em matéria assinada por Lynette Rice.  Vejam a capa:


 Uma grande notícia para os fãs.  Intervalo Rio recomenda!

sexta-feira, 6 de julho de 2018

ENTRE FLORES E ESPINHOS


O metrô seguia o curso; invariável, de todas as manhãs. Entre uma e outra estação, Jailson reeditava seu calvário, em meio a passageiros que, assim como ele, buscavam oxigênio onde quase não o havia. O contato indesejado com estranhos só não lhe era ainda mais penoso porque tinha em mãos um livro cuja narrativa o transportava, mente e alma, para distante dali. Era esse exercício de hipnose autoinfligida que o tornava refratário àquele ambiente hostil e entediante. Jailson não mais ouvia as conversas dos passageiros, a ladainha dos ambulantes, o sinal sonoro dos celulares, os anúncios das estações.

Ainda assim, não lhe passou despercebida uma jovem que distribuía panfletos no interior da composição. Ela aproximou-se de Jailson e pôs um papel sobre seu livro aberto, sem pedir licença ou dirigir-lhe palavra. Deixou-lhe o impresso e fora abordar outros passageiros. Jailson interrompeu-se e leu o escrito. Ela, que nascera muda, solicitava ajuda financeira. Ele sorriu para si, com a ideia a brotar-lhe no espírito; fez, do panfleto, uma dobradura em forma de rosa e ofereceu-a à jovem que, à essa altura, retornava para recolher o material distribuído. Ela tomou de Jailson o papel transfigurado, amassou-o e atirou-o ao chão, contrariada. Mas ele não a censurou; sorriu sem exibir os dentes e agachou-se para recuperar a rosa desprezada. Sacou do bolso uma nota de cinquenta e entregou-lha à pedinte. O rosto da jovem esmaeceu, pois um desconhecido jamais lhe oferecera tamanha quantia. E foi assim, incrédula, que tomou para si a nota irrecusável e deu de costas, com ar indolente. Jailson a viu desaparecer entre os passageiros, com a mesma facilidade com que chegara até ele. E pôs-se a manusear a dobradura para recompor a forma que lhe dera.

Ao lado de Jailson, uma idosa, que presenciara a cena, comentou:

- É incrível como as pessoas rejeitam uma gentileza ou um gesto de solidariedade que não seja o financeiro.

Ele olhou para a mulher e respondeu-lhe:

- É simples: há pessoas que não sabem receber. São flores com espinhos. 

Ele tornou a olhar a rosa, deu-lhe um último retoque e ofereceu-a à estranha. Ela sorriu. Ambos sorriram. E Jailson desceu na estação seguinte.

(de Francisco Filardi)

sábado, 23 de junho de 2018

O ILUMINADO: DETONANDO KUBRICK





Dentre os filmes dirigidos por Stanley Kubrick, merecem destaque os títulos 2001: uma odisséia no espaço (1968), do instigante computador HAL-9000, e Dr. Fantástico (1964), este com direito a tripla atuação do ator Peter Sellers e a famosa cena da cavalgadura no míssil, a qual foi satirizada, inclusive, pela animação Os Simpsons (episódio Homer the vigilante, de 1994).



O mesmo não se pode dizer de O iluminado (The shining, 1980), inspirado no best seller cult de Stephen King. O filme dirigido por Kubrick é uma colcha de retalhos que descaracteriza o trabalho do escritor, omite passagens cruciais do texto original (as árvores em forma de animais e as idas de Jack ao porão do hotel, onde descobre nos livros de registros pistas sobre o passado do Overlook, por exemplo) e retira do hotel a condição de personagem central da trama. Os espectadores de Kubrick (que não leram o texto de King) ficam perdidos com as lacunas no roteiro as quais incluem esclarecimentos acerca do significado da palavra REDRUM e da influência maligna do hotel sobre seus hóspedes.



Kubrick altera substancialmente o texto original, levando o filme a um desfecho patético que o afasta totalmente do clima tenso e violento do último terço do livro de King. Para completar o desastre, concorrem as atuações catastróficas de Shelley Duvall (como Wendy Torrance) e do inexpressivo ator mirim Danny Lloyd (na pele de Danny, o iluminado do título) cujo carisma ou graça é ZERO.



Já o Dick Halloran retratado por Kubrick (interpretado pelo simpático Scatman Scrothers) é uma personagem que tem sua importância reduzida e, portanto, distanciada da função para a qual foi criada. Em relação a este, há uma passagem do livro (ignorada por Kubrick) em que o cozinheiro do Overlook, pouco antes de deixar o hotel, face a aproximação do inverno, pede ao menino uma demonstração de seu poder mental. Halloran fica perturbado.



Além disso, a importância do Hotel Overlook (como dissemos, personagem central da trama) foi relegada a um segundo plano por Kubrick. Na versão do cineasta, tem-se a impressão de que o hotel nada tem a ver com as alterações no comportamento de Jack. Parece que este enlouqueceu face ao isolamento da civilização (a trama se passa no inverno, Jack e a família estão sós no Overlook até o fim da estação). Até Tony, o amigo imaginário que apavora Danny em várias passagens do livro, raramente é citado no filme. O título de Kubrick também não esclarece o porquê de Danny avistar, em imagens superpostas, duas irmãs gêmeas em vestido azul, ora de pé, ao fundo do corredor, ora cobertas de sangue, aparentemente no mesmo local. As meninas são filhas do homem com quem Jack conversa no banheiro do salão de baile. Esse homem é o Sr. Grady, antigo zelador do Overlook, que matou as filhas a machadadas (sob influência do hotel). Como percebemos, a omissão de detalhes faz os espectadores de Kubrick tatearem na penumbra, comprometendo o resultado.



Mas, para quem leu o texto de King, a cereja do bolo são as cenas em que é impossível evitar gargalhadas, a exemplo das que citamos abaixo.



Cena 1:




Danny, sob influência de seu amigo imaginário Tony, entra no quarto da mãe, que está a dormir. Em aparente transe, e de posse de um facão, o menino repete seguidamente o palíndromo REDRUM (MURDER, assassino) num tom de voz ridículo, irritante e risível, em cena que não existe no livro.



Cena 2:



Wendy, às lágrimas (ou caretas...), sacode freneticamente um taco de beisebol, enquanto golpeia o ar de forma patética, para fugir de Jack (ele não deseja machucá-la, só estrangulá-la!).  É, Wendy, pare com esse bastão!!!




Cena 3: 




Wendy Torrance foge do marido perturbado, acompanhada pelo filho, e sobe as escadas em direção aos seus aposentos. Lá chegando, ambos se trancam no minúsculo banheiro. Ela faz o filho passar por uma janela estreita que dá para uma espécie de rampa de gelo que faz o menino alcançar a rua. No entanto, ela quase fica entalada, não consegue escapar. Jack, por sua vez, atinge a porta com um machado, enquanto ela, trêmula e desesperada, encolhe-se num canto próximo da porta, com o facão nas mãos. A câmera pega Wendy de frente, ao tempo em que capta as machadadas de Jack. A cada machadada, um grito histérico de Wendy, o que nos faz lembrar do curta Thriller, de Michael Jackson. Não há como não rir!



Cena 4: 




Ao desistir da perseguição ao filho iluminado, Jack desaba no gelo, com o machado em uma das mãos e os olhos revirados para cima. No close, não há como não lembrar do maluquete Jim Carrey!



Stephen King veio a público condenar o trabalho de Kubrick (King odeia o filme). Mas a coisa não ficou nisso. O filme desagradou também aos membros da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood: no ano seguinte (1981, portanto), o diretor e sua atriz coadjuvante foram indicados à primeira edição do Troféu Framboesa de Ouro, premiação destinada à escolha dos piores do ano (uma sátira ao Oscar da Academia).



No entanto, mesmo com a ofensa à obra de King, devemos fazer justiça ao trabalho de Jack Nicholson, nosso maluquete preferido, imbatível nos papéis de lunático, de psicopata ou de vítima de TOC (transtorno obsessivo compulsivo).



No geral, a adaptação da obra de King, citando uma declaração do autor para defini-la, o livro é quente, o filme é frio; o livro termina com fogo, e o filme, com gelo1, coisa que só quem leu King e assistiu a Kubrick irá compreender.





1 em entrevista concedida a Andy Greene, em 12/01/2015, publicada na revista Rolling Stone.

(por Francisco Filardi)

quinta-feira, 14 de junho de 2018

VALIDADE DA VACINA CONTRA FEBRE AMARELA AGORA É PARA TODA A VIDA


 Panorama da febre amarela na América Latina
(mapa publicado em 30/04/2018)
 

 
Alteração no Regulamento Sanitário Internacional (2005), anexo 7 (febre amarela)


Prazo de proteção fornecida pela vacinação contra a infecção por febre amarela, e validade do certificado de vacinação previsto no RSI, estendido para toda a vida da pessoa vacinada.

A Febre amarela é a única doença especificada no Regulamento Sanitário Internacional (2005) para a qual os países podem exigir prova de vacinação para os viajantes como condição de entrada, em determinadas circunstâncias, e tomar medidas se um viajante chegar sem o referido certificado.

Em 2014, baseado na recomendação do Grupo Consultivo Estratégico de Especialistas em imunização da OMS (Organização Mundial de Saúde) de que uma dose única da vacina contra a febre amarela confere proteção para a vida toda, a 67° Assembleia Mundial de Saúde adotou a resolução WHA67.13 (2014) que atualiza e altera o Anexo 7 do Regulamento.

A alteração do anexo 7 do RSI (2005) entrará em vigor e será juridicamente vinculativa para todos os estados signatários do RSI a partir de 11 de julho de 2016. No contexto das viagens internacionais, a alteração do anexo 7 muda o período de validade do Certificado Internacional de Vacinação contra febre amarela, e a proteção fornecida pela vacinação contra a infecção por febre amarela sob o RSI (200), de dez (10) anos para toda a vida da pessoa (viajante) vacinada. Dessa forma, a partir de 11 de julho de 2016, tanto para os certificados existentes quanto para os novos, a revacinação ou uma dose de reforço da febre amarela vacina não pode ser exigida de viajantes internacionais, como condição de entrada em um Estado Parte, independentemente da data em que o Certificado Internacional de Vacinação foi inicialmente emitido.

A validade para a vida desses certificados se aplica a documentos emitidos depois de 11 de julho, bem como àqueles já emitidos.


Texto Revisado do Anexo 7

O texto parcial do Anexo 7 abaixo, inclui o novo texto revisado:

EXIGÊNCIAS RELATIVAS À VACINAÇÃO OU À PROFILAXIA PARA DOENÇAS ESPECÍFICAS

1. Além das recomendações relativas à vacinação ou à profilaxia, poderá ser exigida como condição para a entrada de um viajante em um Estado Parte, nos termos deste Regulamento, prova de vacinação ou de profilaxia contra as seguintes doenças: vacinação contra a febre amarela.

2. Recomendações e exigências referentes à vacinação contra febre amarela:

(a) Para os fins deste Anexo:

(i) o período de incubação da febre amarela é de seis dias;
(ii) as vacinas contra febre amarela aprovadas pela OMS conferem proteção contra a infecção a partir de 10 dias após a administração da vacina;
(iii) essa proteção continua para o resto da vida da pessoa vacinada; e:
(iv) a validade de um certificado de vacinação contra a febre amarela será válida para o resto da vida da pessoa vacinada.

Todas as pessoa envolvidas na implementação das novas exigências devem revisar o texto completo do Anexo 7.


Perguntas e respostas sobre questões específicas:

1. Os viajantes precisam de um novo Certificado Internacional de Vacinação contra a febre amarela?

Não. O atual Certificado Internacional de Vacinação continua válido, agora para o resto da vida do viajante indicado. O RSI (2005), nos Anexos 6 e 7, define requisitos específicos tanto para o conteúdo quanto para o formatos dos certificados de vacinação contra a febre amarela. O formato definido para esses certificados inclui um espaço para inserir a data de validade, se aplicável. Baseado no requisito anterior de validade, os certificados existentes geralmente incluem uma data de validade de dez anos após a data de vacinação. Devido à mudança no Anexo 7, independente da data de vacinação ou de validade, os certificados existentes são agora válidos para o resto da vida.

2. Os certificados de vacinação atuais precisam ser alterados ou modificados para mostrar que são válidos para o resto da vida?

Não. Nada precisa ou deve ser alterado no certificado; na verdade, de acordo com o RSI, qualquer alteração, exclusão, rasura ou adição pode tornar o certificado inválido.

3. Nos novos certificados, qual termo deve ser inserido no espaço do certificado indicando o período de validade?

Enquanto o RSI não especifica as palavras exatas a serem incluídas no certificado para indicar a validade para a vida toda, a OMS encoraja os países a usar palavras que deixam claro e sem ambiguidade que a validade do certificado é para a vida toda da pessoa vacinada. Dessa forma, para evitar potenciais confusão e interrupção da viagem internacional, a OMS sugere usar a mesma terminologia, tal como adotada no texto revisto do anexo 7, que afirma claramente que o certificado tem validade para a vida toda. Como o RSI requer que esses certificados sejam preenchidos em Inglês ou Francês (e também em outra língua, além do Inglês ou Francês), note que a terminologia utilizada no anexo 7 revisto é a seguinte:

Inglês: life of person vaccinated
Francês: vie entière du sujet vacciné

Em português a frase deve ser a seguinte: vida da pessoa vacinada

4. Essa alteração ao RSI (2005) afeta quais medidas que os Estados Partes podem implementar para a proteção de sua população ou o que os médicos podem aconselhar a seus pacientes a respeito da vacinação contra a febre amarela, incluindo possíveis reforços?

Não. A alteração apenas afeta o que os países podem cobrar do viajante internacional como requisito de entrada em relação à vacinação contra febre amarela e o Certificado Internacional de Vacinação. Países e prestadores de cuidados de saúde continuam livres para fazer exigências sobre a vacinação, revacinação ou reforços para suas próprias populações, ou pacientes, respectivamente.

5. Quais passos os que os Estados Partes devem tomar para se preparar para a implementação dos novos requisitos do certificado em 11 de julho de 2016, quando eles se tornam legalmente necessários?

Informar todas as autoridades competentes, escritórios e pessoal; Treinar o pessoal responsável pela avaliação, processamento e aceitação do Certificado Internacional de Vacinação contra a febre amarela para garantir que eles possam desempenhar suas funções corretamente nessa data; rever e atualizar, conforme necessário, todas as leis, regulamentos, regras de funcionamento ou procedimentos ou outras disposições relativas à avaliação, processamento e aceitação do Certificado Internacional de Vacinação contra a febre amarela para garantir que sejam coerentes com as novas exigências.


O texto completo do Anexo 7, com as alterações e em vigor para todos os estados membros da OMS, a partir de 11 de julho de 2016, em árabe, chinês, inglês, francês, russo e espanhol está disponível em World Health Organization.


  Fonte: Anvisa

terça-feira, 22 de maio de 2018

GRADUANDOS QUE ATUAREM COMO MESÁRIOS PODERÃO GANHAR HORAS HAC NAS ELEIÇÕES 2018


Universitários e alunos de escolas técnicas que trabalharem como mesários nas próximas eleições poderão ganhar até 80 horas de atividades complementares (horas HAC), necessárias para a conclusão da graduação. Até o momento, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) já firmou convênio para a concessão do benefício com  49 instituições de ensino superior em todo o estado, entre as quais UniRio, UFF, UFRRJ, IBMEC e Faetec. Além disso, graças a uma parceria do TRE-RJ com o Conselho Seccional da OAB/RJ, os estudantes de Direito que atuarem como mesários ganharão 40 horas de estágio por cada turno de trabalho nas eleições.
O objetivo da Justiça Eleitoral é incentivar os estudantes a se inscreverem como mesários. Somente neste ano, o cadastro de mesários voluntários do TRE-RJ  já recebeu mais de 14 mil inscrições. Quem quiser atuar como mesário voluntário nas eleições de outubro pode se inscrever pelo site do TRE-RJ ou pessoalmente em seu cartório eleitoral.

 O mesário recebe auxílio-alimentação, tem preferência no desempate em concursos públicos, se previsto no edital, e ganha dois dias de folga no serviço público ou privado por dia de treinamento e de trabalho. A relação completa das instituições de ensino parceiras e o número de horas concedidas estão no site do Tribunal.

Inscreva-se como Mesário Voluntário.


fonte: assessoria de imprensa do TRE/RJ

sábado, 5 de maio de 2018

UM PROTESTO CONTRA O TESTE DE PRODUTOS COSMÉTICOS EM ANIMAIS



A rede de lojas The Body Shop está com uma campanha em andamento para por fim aos testes de produtos e ingredientes cosméticos em animais.  A petição necessita de pelo menos 8 milhões de adesões para que a proposta seja encaminhada à Assembleia Geral da ONU.

Toda forma de maus tratos a animais deve ser banida. Assine a petição eletrônica.   

terça-feira, 1 de maio de 2018

O QUE O TEMPO E O VENTO NÃO LEVAM, DE FRANCISCO FILARDI


Morelli batia ponto no serviço público havia mais de quarenta anos. Da turma que começara com ele, uns se aposentaram. Outros, falecido. Dentre os remanescentes, ainda na ativa, era Adalgiza quem tentava convencê-lo a aposentar-se, para cuidar da saúde e aproveitar a vida. Mas o teimoso Morelli insistia em ficar. Defendia-se, argumentando que, se ela mesma não o fazia, não havia razão para tal. Mas se Adalgiza adiava a decisão devia o fato ao amigo a quem não desejava abandonar. Já Morelli receava que, indo para casa, talvez tivesse a mesma sorte de muitos de seus pares.



Ele não tinha família. A mulher, com quem convivera por mais de trinta anos, falecera há uns oito, e o golpe, duríssimo, fora assimilado com dificuldade. Vez ou outra, os colegas o pegavam, choroso, num canto qualquer da repartição. Nos corredores, corria a crença de que a saudade da falecida esposa não era o motivo pelo qual Morelli rejeitava a aposentadoria, mas o pavor da solidão. Dora, sua única filha, casara-se com um militar de alta patente e transferira-se para o sul do país, há seis anos, por conta do trabalho do marido. Vinha ao Rio de Janeiro somente para as festas de fim de ano, período que coincidia com as férias do casal. E a distância, medida em quilômetros, dificultava-lhe a assistência ao pai. Nos últimos dois anos, os problemas de saúde de Morelli se agravaram. Desconfortos à altura do peito o levavam a frequentes visitas ao departamento médico do órgão. E, não raro, os especialistas aconselhavam-no a ir para casa. Em definitivo. Mas o teimoso Morelli resistia.



Fato é que o setor onde os amigos Morelli e Adalgiza trabalhavam, assim como todo o órgão, foi-se renovando com o passar dos anos. Uma decorrência natural do processo evolutivo. A garotada, aprovada em concurso público, foi chegando devagar e tomando conta do pedaço. O velho cedendo espaço para o novo. Como deve ser. No entanto, Morelli, que era das antigas, não só quanto ao tempo de serviço mas quanto a forma de pensar, nutria um sentimento romântico, defasado e (por que não?) preconceituoso em relação aos colegas mais novos. Entrara no serviço público pela janela, como se dizia, porque seu pai fora um respeitável juiz, alçado, em fim de carreira, à condição de desembargador. Morelli tinha orgulho do pai e, claro, de sua própria condição. Acreditava, convicto, em ser detentor de um privilégio dinástico. Do que ele não fazia ideia, porém, é que só em respeito ao nome e ao histórico profissional de seu nonagenário progenitor que os chefes o toleravam.



Tal esclarecimento se faz necessário para entender que Morelli não gostava dos concursados. Mas não era pelo fato de os jovens serem concursados. Ou de representarem uma ameaça ao posto de que se apropriava por direito quase divino. Ele colocava em xeque a competência da garotada e o fazia abertamente, sem papas na língua, como dizia vovó.

Certo dia, Evandro, homem inteligentíssimo, na casa dos trinta, estudioso e graduado em Direito, que trabalhava ali há pouco mais de um ano, transitava pelo corredor próximo à sala onde Morelli e Adalgiza conversavam.  E ouviu a queixa do colega:



- Quer saber, Giza? Eu não troco a experiência dos mais velhos pela falta de compromisso dos mais novos!



Evandro não retrucou. Fez de conta que não era com ele. Apenas guardou para si o comentário do já quase septuagenário colega. Cinco meses depois, toda a repartição fora convocada para a sala do diretor. Era uma sexta-feira, final de tarde. A notícia foi dada e todos comemoraram a aprovação de Evandro para o cargo de Juiz de Direito, festejada com bolo, salgadinhos, refrigerantes e sucos de frutas, por conta da administração. Evandro se mostrou sensibilizado com a gentileza do corpo diretivo e dos colegas. Mas não perdoou Morelli. Aproximou-se deste, ao fim da comemoração e, pouco antes de deixar o recinto, disparou em particular:



- Eu não troco a inteligência da garotada pelo comodismo dos mais velhos...



Morelli perdeu a cor, estacou ali. Sentiu o golpe. Mais um golpe, duríssimo. O que dissera dias antes a Adalgiza, ele compreendeu, magoara o colega. 

Evandro foi empossado no novo cargo quinze dias após a comemoração. Já Morelli veio falecer dezoito dias após a posse do ex-colega, a qual não compareceu. Saiu do mundo de fininho, talvez por vergonha. Ou por tristeza, como disseram amigos próximos. Adalgiza, por sua vez, sentida com a ausência do colega e amigo de longa data, decidiu aposentar-se. E partiu, também, quatro meses depois.



Já Evandro, este atuou como profissional do Direito de forma devotada e leal, o que se espera de um magistrado. Soube do passamento dos ex-colegas somente um ano e quatro meses depois de sua posse. E arrependera-se do que dissera a Morelli. Porque mal se iniciara na carreira, maculara-a já com uma tremenda injustiça.

(Filardi)

sexta-feira, 16 de março de 2018

O FILME ERRADO



Neste ano de 2018, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood não se enganou de envelope; enganou-se de filme. 
 
O vencedor da principal categoria, A forma da água, dirigido por Guilhermo Del Toro, é um dos piores ganhadores do Oscar de Melhor Filme da história. É de roteiro frágil, insosso, previsível, repleto de clichês e cenas bizarras; não emociona, não encanta, não faz o público reagir. Passa longe de outros trabalhos de Del Toro, inclusive da animação Caçadores de trolls, já na segunda temporada no Netflix.

O diretor mexicano abusa da paciência do espectador com um argumento que faz lembrar o trash O monstro da lagoa negra (1954, dir: Jack Arnold), sendo que a criatura anfíbia de Del Toro serve como válvula de escape para os delírios imaginativos de uma garota que se masturba na banheira.

Ainda assim, vale destacar as boas atuações de Sally Hawkins (Eliza Esposito) e de Richard Jenkins (Giles).

Filardi

MATAR OU MORRER, 1952




- Desde garoto, queria ser como você. Você sempre foi um homem da lei.



- Sim, minha vida inteira. É uma bela vida: você arrisca a pele atrás de assassinos e os júris os soltam, para eles o matarem. Se for honesto, será pobre. No fim, você morre sozinho em uma rua suja. Para quê? Para nada. Para ter uma estrela de prata [...]. As pessoas defendem a lei e a ordem, desde que não tenham de fazer nada. Talvez porque, no fundo, elas não se importam.

Matar ou morrer (High noon), 1952. Elenco: Gary Cooper, Grace Kelly, Lloyd Bridges, Lee Van Cleef, Katy Jurado.   Direção: Fred Zinnemann.

terça-feira, 13 de março de 2018

NEM SEMPRE QUEM RI POR ÚLTIMO RI MELHOR. NÃO É, DR. EVIL?


                                              Mike Myers caracterizado como Dr. Evil


Austin Powers, o agente britânico sessentista, interpretado pelo ator Mike Myers, apareceu em três filmes, realizados em 1997 (Um agente nada discreto), 1999 (O agente Bond cama) e 2002 (O homem do membro de ouro). A sátira escrachada aos filmes de espionagem, notadamente de James Bond, rendeu a Myers o desafio de interpretar também o arqui-inimigo de Powers, o não tão terrível Dr. Evil.

Mas o que pouca gente sabe é que o cacoete do vilão em levar o dedo mínimo ao canto da boca, enquanto gargalha, não foi criação de Myers. No episódio intitulado Um caso de perfeição, da 5a. temporada do seriado Além da Imaginação (1959-1964), que foi ao ar originalmente em 18/10/1963 pela rede CBS nos Estados Unidos, vemos o ator Richard Long fazer o mesmo ao longo do episódio. Comparem as fotos.

                         Richard Long no episódio de Além da Imaginação

O roteiro de Um caso de perfeição foi escrito por Charles Beaumont (colaborador assíduo da série) em parceria com John Tomerlin, e dirigido por Abner Biberman.

sexta-feira, 9 de março de 2018

PROVIDENCE, ALAIN RESNAIS



"Para mim, estilo é emoção 
em sua forma mais elegante".

por Clive Langham, interpretado por John Gielgud, em Providence (dir. Alain Resnais, 1977).

I WANT TO BE ALONE



A atriz sueca Greta Garbo imortalizou a frase I want to be alone em 1932, no filme Grande Hotel - considerado o primeiro blockbuster do cinema estadunidense. Sete anos depois, Garbo quase a repete em Ninotchka (We want to be alone), mas é a frase original, dita pela amargurada personagem Elizaveta Grusinskaya, que entraria para a história como expressão do comportamento refratário de sua intérprete.

Do que pouca gente sabe, no entanto, é que a frase I want to be alone foi aproveitada também pelo comediante Oliver Hardy em The flying deuces, de 1939 (Os tolos voadores, exibido nos cinemas brasileiros sob o título Paixonite aguda).

No longa, Oliver se apaixona por Georgette (Jean Parker), sem saber que esta é casada com um soldado da Legião Estrangeira. Desolado, por ter sua proposta de casamento recusada, Oliver olha para o vazio e dispara um I want to be... alone convincente. Para quem assistiu a Grande Hotel, é impossível não reagir à cena.

Os tolos voadores passa longe dos melhores trabalhos de Laurel & Hardy, mas a cena em que Hardy pega carona na frase de Greta Garbo vale o filme.

Intervalo recomenda!