sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O TRISTE FIM DA LINHAGEM DOS ROMANOV



No terceiro episódio do documentário Empire of the tsars, intitulado The road of revolution, disponível no NETFLIX, a apresentadora da BBC Lucy Worsley comenta que



"[...] a Rússia contaria com uma assembleia representativa: a Duma, que deveria tomar parte na elaboração das leis. Nicolau [Nicolau II, o último czar russo, da linhagem dos Romanov] insistiu para que a abertura da Duma Estatal fosse no Palácio de Inverno (em São Petersburgo, capital na época). E assim, em abril de 1906, a elite russa ficou cara a cara com o povo, pela primeira vez. Neste lado (esquerdo) da sala, estava o governo de Nicolau, seus conselheiros, vestindo uniformes com adornos dourados. Do outro lado (direito), estavam os membros da nova Duma. Usavam roupas de operários e camponeses, que eram camisas vermelhas e longas botas rústicas. Os dois lados se entreolhavam com desconfiança e hostilidade. Era a hora certa para Nicolau aproximar os desunidos, a fim de que estes se reconciliassem. Mas não. Ele fez um discurso defendendo seu poder autocrático. Ele iria conservá-lo, disse ele, com uma vontade inflexível. No fim do discurso, os conselheiros o saudavam, estavam encantados. Mas os membros da nova Duma assistiram a tudo num silêncio tumular".

O czar Nicolau II, sua esposa, Alexandra, suas filhas, as grã-duquesas 
Olga, Maria, Tatiana e Anastásia, e o caçula Alexei.



Esse fragmento é significativo. Governantes têm a oportunidade de mudar a vida de um povo, a rota de uma nação, mas não o fazem por estarem atrelados teimosamente a crenças pessoais e a certezas duvidosas, que neblinam sua capacidade de enxergar o futuro próximo. Com essa decisão, Nicolau II condenou à morte não só o seu governo, mas a Rússia, a sua família e os 300 anos da dinastia dos Romanov, de forma brutal. A História é formada por ciclos. E ciclos se repetem, para que tenhamos oportunidade de aprender. Ainda assim, deparamos com governantes que parecem resistir ao aprendizado da História, recusam-se a ouvir os ecos do passado e a optar por caminhos alternativos, conciliatórios. O resultado disso não é difícil de prever: tensões entre governo e povo delineiam um barril de pólvora prestes a explodir. E, cedo ou tarde, barris explodem.  Sempre.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

BISNAGA, DE FRANCISCO FILARDI



Foi Douglas quem apareceu com a novidade. E Samuel, seu amigo de infância, o primeiro a saber. Assim que o amigo chegou a sua casa, fez as apresentações. Havia adotado um cachorrinho da raça pug, a quem batizara de Bisnaga. Bisnaga! Isso lá é nome de cachorro? Foi o que perguntou Samuel a si mesmo, assim que deu de cara com o bicho. De fato, não. Mas explica-se: o recém-chegado alcançava o Nirvana só de sentir o cheiro de pães franceses saídos do forno. O canino era tão cara de pau que não resistia a um francesinho na manteiga! Isso era tão sério que, mal chegava da padaria, Douglas tinha que dar um pãozinho ao Bisnaga, antes mesmo de pôr a mesa para o lanche, tal a impaciência do bicho. Foi devido a essa nobre esganação que Douglas deu ao pug um nome a ver com a grandeza de seu apetite, não com o porte. Mas o nome não era o problema do bichinho.

Logo que Samuel se acomodou num canto no sofá, Bisnaga, que estava sobre uma almofada, no extremo oposto, levantou a cabeça e, com os dentes à mostra, rosnou para o intruso, num claro sinal de que não o desejava ali. Mas a coisa ficou nisso, é bom que se diga. Bisnaga não era chegado a implicâncias, muito menos a brigas. Nada tirava a sua paz, desde que não o incomodassem naquele canto mágico do sofá. Samuel bem que tentou, mas não conseguiu convencer o Bisnaga de que estava ali em missão de paz.

- Seu cachorro está com defeito, Douglas! - provocou Samuel.

- Defeito?! - estranhou o amigo.

- É! Ele não é lá muito certo da cabeça... rosna o tempo todo!

- Não, Samuel. No geral, ele é sossegado. Gosta desse canto do sofá - disse Douglas, apontando com o queixo -, onde se deixa afundar na almofada. Acha que o sofá é só dele. Até comigo ele, às vezes, implica!

Foi quando Samuel teve a ideia: ergueu a cabeça na direção do teto, encheu os pulmões e soltou um uivo, daquele que os lobos soltam para a lua. Bisnaga, que tinha os olhos fixos no estranho, arregalou olhos e orelhas. Inclinou também a cabeça para o alto e fez coro. Samuel uivava de cá, Bisnaga uivava de lá. Assim nasceu uma longeva amizade. Quem não gostou da brincadeira foi Douglas, que desde então tem que aguentar aquele duplo uivado no sofá, todo fim de semana. Haja!

(de Francisco Filardi, finalizado em 21/06/2017)

terça-feira, 20 de junho de 2017

MULHER MARAVILHA (2017) NÃO É ISSO TUDO...



Após ouvirmos comentários favoráveis sobre o filme Mulher Maravilha (2017), Intervalo Cultural Rio foi ao cinema dar uma conferida na história de Zack Snyder, Jason Fuchs e Allan Heinberg (este último quem assina o roteiro).

Themyscira é uma ilha paradisíaca, inacessível aos humanos, onde vivem somente mulheres guerreiras, as Amazonas, que treinam para a batalha iminente contra Ares, o Deus da Guerra (David Thewlis, o professor Lupin da franquia Harry Potter). A ilha é descoberta com a chegada acidental do capitão da Força Aérea dos EUA, Steve Trevor (Chris Pine), em fuga dos alemães, durante a Primeira Guerra Mundial. Trevor é resgatado do mar por Diana (Gal Gadot) e, a partir daí, estabelece-se um paralelo com a Bíblia; ao conhecer a verdade sobre o mundo dos homens, cai por terra a inocência de Diana (o que corresponde à perda da inocência do homem no Paraíso de Deus). Diana, princesa de Themyscira, filha de Hipólita (Connie Nielsen) e Zeus, seria a versão feminina de Jesus, uma vez que a deusa deixa o paraíso e vem à Terra para salvar o homem de si mesmo.

Esse paralelo, ainda que não óbvio, não salva o filme de Patty Jenkins da armadilha dos clichês, como na cena da morte de Antíope (Robin Wright), tia de Diana, a quem deixa o seu legado, ou ainda em cenas exageradas e inverossímeis, como o ataque de Diana ao front alemão. A intensidade da ação desloca a atenção do espectador para o que não é essencial. Nesse ponto, não há como não lembrar de "A vida é bela" (1997), do italiano Roberto Benigni, filme que apresenta uma boa ideia, mas cheia de furos. Decerto, o cinema, bem como a Arte de modo geral, não possui relação com a verossimilhança, mas compreendemos que quanto mais distante do crível estiver a história, menor será seu poder do convencimento. É o caso de Mulher Maravilha. Ou seja, o filme carece de uma lapidada nos excessos.

As cenas de ação, que impactam na garotada, são bem desenvolvidas, mas a produção de Snyder se vale da mesma técnica de combate empregada em "300" (releitura de "Os 300 de Esparta", de 2007), que dirigiu. Nada que não tenhamos visto. Assim sendo, Mulher Maravilha é previsível, como a esmagadora maioria dos filmes de heróis. Na batalha final contra Ares, não há como não lembrar de Cyclope, dos X-Men.

Ao contrário do que vem sendo discutido na imprensa, Mulher Maravilha não é um filme que prega o feminismo ou o empoderamento da mulher. O que se propõe é mais amplo. É sobre a crença/descrença no ser humano, sobre essa criatura confusa, cheia de idiossincrasias e dramas pessoais e coletivos, capaz de maravilhas e de abominações. Ou seja, é sobre a validade de lutarmos pela humanidade. A luta de Diana Prince é a luta das pessoas de bem, em todo o planeta.

Por fim, a atuação de Gal Gadot, atriz de beleza comum e charme juvenil, não compromete. Mas, no geral, Mulher Maravilha é diversão pipoca, não passa de um filme mediano.

(Filardi)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

TARÔ LEVADO A SÉRIO (OU QUASE), DE FRANCISCO FILARDI



Madame Filardi e Madame Jeripimboca, a Pimbinha, conhecem-se há muito, desde quando se iniciaram nos caminhos do ocultismo. Pimbinha, ao contrário da colega vidente, é taróloga e colecionadora de casos tão incomuns quanto o que narramos a seguir.

Certo dia, Mariana, a filha mais velha de Pimbinha, comentou que a avó de uma amiga andava deprimida, desesperançada, e desejava recorrer às cartas, o que deixou a taróloga em cócegas. 
 

O que se sabia sobre a idosa Tatá, a consulente em questão, era que ela se dizia católica apostólica romana, embora tal não convencesse os seus pares, pois há muito abandonara as missas. Na boca pequena, corria que a ex-religiosa Tatá batera ponto em terreiros de umbanda e demonstrava certa inclinação para as coisas místicas. Daí o interesse pelo trabalho de Pimbinha.

Numa quinta-feira, à tarde, a taróloga recebeu Tatá em sua residência. Estendeu sobre a mesa uma toalha branca, procedeu os ritos iniciais etc. Mas façamos aqui uma observação: a leitura das cartas dessa arte secular divinatória que é o Tarô não deve ser tomada ao pé da letra. A interpretação não depende do significado desta ou daquela carta, tomado individualmente, ou mesmo da ordem em que as cartas são reveladas, e sim das relações que se formam entre estas, no todo. Este resumo explicativo se faz necessário porque Tatá, para quem o Tarô era uma experiência inédita, chegou desavisada à consulta (para variar).

Pimbinha embaralhou o deck e solicitou a Tatá que o cortasse em três partes, reagrupando-o em seguida. Enquanto isso, Madame Filardi, sentada ao sofá, com as pernas esticadas, fingia ler uma revista. Interessada, acompanhava já os preparativos com espiadelas de rabo de olho, enquanto saboreava um chá de camomila. As cartas foram misturadas uma segunda vez, Tatá procedeu outro corte e Pimbinha reagrupou novamente o deck. Em seguida, a taróloga puxou a primeira carta, deitando-a no centro da mesa, com a face voltada para cima. 
 

- Esta - disse, enquanto apontava com o dedo indicador - é a sua carta, Tatá, seu momento atual. 
 

A carta em questão era o Arcano Maior de número treze: A morte. Tatá deu um pulo para trás, na cadeira, e, ao tempo em que colocava a mão direita sobre o peito, gritou:



- Ai, meu Deus! Eu vou morrer! Eu vou morreeeeeeeer!!!



Que ninguém ouse dizer que o desespero de Tatá era injustificado, afinal contabilizava 83 anos de idade, faixa etária em que a morte é um fantasma para lá de teimoso. Madame Filardi repousou a xícara de chá sobre a mesa de centro e levantou-se do sofá. Embora risse consigo, tratou de acudir a visitante:

- Tenha calma, Tatá. A morte, no Tarô, significa transformação, mudança, oportunidade, renovação: o fim de algo para o começo de outro.

Mas Tatá não se deixou convencer de primeira:

- O que vai mudar ou começar, para mim, a essa altura da vida, Madames?

- O futuro é um mistério, Tatá! - respondeu Pimbinha. - Sente-se, por favor. Vamos continuar a leitura.

Embora apavorada (essa era a palavra) com a carta e a resposta para lá de clichê de Pimbinha, Tatá concordou em que a sessão prosseguisse. Uma vez terminada a consulta, já mais ou menos refeita, Tatá agradeceu, prometendo retornar dali a uma semana (o que era incomum, já que as consultas de Pimbinha se limitavam a uma por mês, para cada cliente). Mas a taróloga compreendeu a urgência da consulente e não objetou. Trocaram acenos e sorrisos amáveis (amarelos) e então, despediram-se. Assim que a porta fechou-se por trás de Tatá, Pimbinha e Madame Filardi conversaram. E passaram o resto da semana sem notícia de Tatá.

Na semana seguinte, estavam Pimbinha e Madame Filardi reunidas para o sagrado chá das quintas-feiras quando Mariana, a filha da taróloga, chegou da rua mais branca que vela de igreja. 
 

- Mãe... - disse a jovem.

- O que foi, minha filha? Está pálida, parece que viu fantasma! Desembuche!

- Lembra da dona Tatá, que esteve aqui na semana passada?

- Claro! Ela quase infartou, quando deitei a primeira carta!

- Pois é. Ela morreu...

Pimbinha não reagiu. Ficou ali, indefesa e petrificada, a olhar para a filha como se buscasse no além uma explicação divina para o que acabara de ouvir. Por outro lado, Madame Filardi, que a essa altura se fartava com uma boa golada de chá, engasgou-se numa crise de tosse tal que a fez cuspir longe a bebida. Mas a coisa não parou por aí. Controlada a tosse, Madame Filardi teve ainda outra crise: de risos! Ou melhor, risos que se desdobravam em sonoras gargalhadas, o que deixou Pimbinha para lá de irritada:

- Não ria, Madame! Isso é grave, gravíssimo! Não vê que minha reputação está em risco? Se Tatá contou a alguém sobre a sessão da última semana, estarei frita! - repreendeu a taróloga.

Mas de nada adiantou a reprimenda: quanto mais irritada se mostrava Pimbinha, mais gargalhava a outra Madame. Até Mariana já não disfarçava o riso, face o ridículo da situação. E isso, claro, também irritou Pimbinha.

- Até você, Mariana!

- Desculpe-me, mãe, mas... o que posso fazer?!

- Não ria!!! - protestou a taróloga, desesperada.


- Cá entre nós, Pimbinha, - interveio Madame Filardi, entre uma e outra gargalhada - lá nos recônditos de sua alma, você nunca sentiu uma vontadezinha de despachar um cliente, hã?

- Mas que absurdo! - contestou a taróloga. 
 

- Pois confesso-lhe que a vontade de jogar minha bola de cristal em certas cabeças nunca me faltou! - retrucou a vidente. Você há de convir, Pimbinha: sua leitura das cartas nunca foi tão precisa!

É óbvio que a coisa não ficou boa entre as Madames, mais por conta de Pimbinha que se recusou a falar com a amiga por semanas. Até Mariana acabou vítima do mau humor da mãe (que detestava chacota). Mas a coisa não durou. Mariana fez a mãe perceber que o trágico fim de Tatá não passou de uma infeliz coincidência. E é claro que Madame Filardi, gente boa (só) com os amigos, não levou a sério a rabugice da amiga. Voltaram a papear às quintas, à tarde, como de costume, em encontros regados a um bom chá de camomila. E a biscoitinhos chineses (para dar sorte).

(finalizado a 29.05.2017)

sábado, 4 de março de 2017

GATINHO BONITINHO (SÓ QUE NÃO...), DE FRANCISCO FILARDI



Foi Madame Filardi quem trouxe a novidade (para variar). Uma de suas amigas, a Jajá, é louca por gatos. Não, leitor, você não entendeu. Onde se lê louca por gatos, leia-se daquelas que beijam, abraçam, mordem, apertam bochechas, dão colinho e ninam os tais como se bebês fossem.

Se essa devoção aos felinos se restringisse ao âmbito doméstico, vá lá. Mas a sandice da Jajá ultrapassa os limites do bom senso. Em seus habituais passeios vespertinos, por exemplo, chega a interromper os passos, a cada cinco ou dez metros, só para acariciar algum felino que se lhe meta no caminho, um suplício para quem se atreve a acompanhá-la. Os vizinhos juram que ela perdeu os parafusos (todos); os parentes, então, fugiram faz tempo! Os chamegos nos bichanos são tão exagerados que é impossível os passantes ignorarem a cena: - "Que melação! Que nojo!", comentam.

Madame diz que a louvação excessiva é só a ponta do iceberg, já que pela cabecinha da sua amiga festeira passam ideias para lá de modernosas (por conta dos tais parafusos perdidos...). E não é que ela, aos 63 de idade, resolveu cursar uma faculdade?

Pois é. Mas tudo ia bem, sejamos justos: Jajá era aplicada, não faltava às aulas, tirava boas notas; enfim, era uma autêntica CDF. Só mesmo lá pelo terceiro período, quando um professor de "História de não sei do quê" pediu à turma um trabalho em grupos, é que a coisa desandou. O grupo de Jajá incluía a Beneplácida, o Marcondes e o Malaquias, este destacado para receber os colegas numa primeira reunião do grupo, na qual dividiriam responsabilidades e tarefas.
Mas havia um porém nessa brincadeira. Malaquias, que também era fã de felinos, tinha no apartamento um vira-latas brabo que só! Não, leitor, você não entendeu (de novo). O gato do Malaquias não é daqueles que se intimida com um estranho em seu terreno e corre para debaixo da cama. Na-na-ni-na-não! Ele é Dom Gato Corleone, em pessoa! Como quem nada quer, põe-se diante do intruso, apoia-se nas patas dianteiras e o encara como quem diz: - E aí, brou, o que é que tá pegando?. Beneplácida e Marcondes, que já haviam visitado o Malaquias em outras ocasiões, não davam a menor bola para o bicho (por isso, entendiam-se, cada um no seu canto), mas sabiam que o gato do anfitrião não vivia só da fama. O problema, eis a questão, é que ninguém ali avisou a Jajá.

No dia combinado para aquela que seria a primeira reunião do grupo, o bafafá se deu logo à entrada do apartamento do Malaquias, nas saudações e cumprimentos. Afoita, Jajá se inclinou para, digamos... cumprimentar o gato - que, com certo cinismo, já se enroscava nas pernas do dono. Pensando tratar-se de uma graça do felino, Jajá não economizou no tatibitati:

- Que gatinho gostosinho! Que cheirosinho! Que fofinho! Que bonitinho! Que...

Bem, era natural, depois de tantos que no início das frases, que o tempo fechasse (pelo menos, na opinião do gato, que detestava exclamações!). Bigorna (!), o tal do gatinho bonitinho, abaixou as orelhas, eriçou pelo e bigodes, esticou o rabo e encarou Jajá todo encrespado, enquanto desprendia um miado tão agudo que fez arrepiar até os cabelinhos do... fiofó da idosa. Para completar o serviço, o bichano malvadão partiu para cima da velhota, desferindo-lhe quatro arranhões nada discretos, entre a orelha e o olho esquerdos, para que ela não mais se atrevesse a bajular quem não conhece. Horrorizada, Jajá disparou, em severo galope, pelo corredor do prédio.

- Valha-me, Deus! Gatinho mau! Gatinho mau!* - gritava, enquanto Beneplácida, Marcondes e o próprio Malaquias assistiam à cena, às gargalhadas.

Moral da história: só de pensar na desventura da amiga, Madame Filardi chora (de tanto rir)!



* A citação Gatinho mau! é uma homenagem à escritora Ciça Silveira, que imita, como ninguém, a saia justa da dona Jajá.

de Francisco Filardi, finalizado em 04/03/2017.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

PROJETO "ARTE, EDUCAÇÃO E SUSTENTABILIDADE" COMPLETA CINCO ANOS COM EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA


Atenção, professores/professoras, amigos de Intervalo Rio!

A exposição é destinada ao público em geral, mas espera receber a visitação de grupos escolares, por ser de cunho educacional e ter por finalidade a disseminação da cultura da reciclagem e da consciência acerca da sustentabilidade.

Para grupos escolares, não haverá necessidade de agendamento e não há limite de alunos por grupo.

A entrada é franca.

DE 18/02 a 31/03/2017
No Espaço Furnas Cultural: rua Real Grandeza, n° 219 - Botafogo
De terça a sexta, das 14h às 18h; sábados, domingos e feriados, das 14h às 19h.

Coordenação: professor Marcos Lanzieiro.


Esse Projeto é uma edição retrospectiva dos seus primeiros 5 (cinco) anos de existência. Vale a pena conferir.

Intervalo Rio recomenda!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

SOBRE OS CASOS DE FEBRE AMARELA EM MINAS GERAIS



Tendo em vista o número de casos confirmados de febre amarela em Minas Gerais, o Ministério da Saúde e a Prefeitura do Rio de Janeiro reforçam as informações acerca da prevenção.

Os municípios com ocorrência de casos suspeitos de febre amarela (Ladainha, Malacacheta, Frei Gaspar, Caratinga, Piedade de Caratinga, Imbé de Minas, Entre Folhas, Ubaporanga, Ipanema, Inhapim, São Domingos das Dores, São Sebastião do Maranhão, Itambacuri, Poté, Setubinha, Água Boa, São Pedro do Suaçuí, Simonésia, Teófilo Otoni, Ipatinga, Alpercata, Itanhomi, Santa Rita do Itueto, Alvarenga, Conceição de Ipanema, Manhuaçu, Mutum, Santana do Manhuaçu e Novo Cruzeiro) já fazem parte das áreas com recomendação da vacina (ACRV), assim como todo o estado de Minas Gerais.

Dessa forma, se você pretende viajar para esses municípios deve vacinar-se.

Os estados do Rio de Janeiro (municípios do noroeste) e da Bahia (municípios do oeste) reforçarão a vacina da população que mora próxima à divisa do leste de Minas Gerais.

No Rio de Janeiro, a imunização atenderá a população dos seguintes 14 municípios:

Bom Jesus do Itabapoana
Cantagalo
Carmo
Comendador Levy Gasparian
Itaperuna
Laje do Muriaé
Miracema
Natividade
Porciúncula
Santo Antônio de Pádua
São Francisco de Itabapoana
Sapucaia
Varre e Sai
e área norte de Campos dos Goytacazes

A Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro alerta que essa é uma medida preventiva e que não foi registrado nenhum caso de febre amarela no estado em 2016 e nestes primeiros dias de 2017.

No momento, quem vivem em outras cidades fluminenses não precisa ser imunizado - a não ser que tenha que viajar para áreas com transmissão comprovada da doença.

A vacina está disponível em diversas unidades básicas de saúde e deve ser administrada pelo menos dez dias antes do deslocamento, para garantir o desenvolvimento da imunidade.

Sobre a febre amarela: é uma doença infecciosa febril aguda, com grande importância epidemiológica, por sua gravidade clínica e elevado potencial de disseminação em áreas urbanas. Possui dois ciclos epidemiológicos distintos: silvestre e urbano. É transmitida pela picada do mosquito Haemagogus (forma silvestre) e do Aedes aegypti (forma urbana), não havendo transmissão de pessoa para pessoa.

Sinais e sintomas mais comuns da doença duram em média três dias. São eles: febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos. Nas formas mais graves da doença, que são raras, após breve período de remissão (até dois dias), podem ser evidenciados: icterícia (olhos e pele amarelados), insuficiências hepática e renal, manifestações hemorrágicas e cansaço intenso, podendo levar ao óbito em até uma semana.

As informações sobre os cuidados com a febre amarela são atualizadas diariamente pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria Estadual de Saúde.

fonte: Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O CÉU PARA OS "ESPERTOS"


Janine era uma dessas mulheres que apreciavam a leveza do espírito e seguia a vida sem grandes "encucações". Não era metódica, não tinha vícios, mas tinha lá as suas predileções, entre estas uma certa padaria de Copacabana - que frequentava, há mais de vinte anos. Mesmo não sendo fã de praia (pois o sol, o sal e a areia castigavam sua pele alva), apreciava as caminhadas vespertinas pelo calçadão, do Copacabana Palace ao Posto 5. E acabava o passeio com uma "esticada" na tal padaria.

Num sábado, estava ela encostada no balcão dos pães, prestes a ser atendida, quando um cidadão "furou a fila", ordenando à atendente que embrulhasse um pão doce da vitrina. Indignada, Janine tocou o ombro do sujeito e apontou a fila detrás de si. Ele, por sua vez, olhou-a, de cima a baixo, e disse, em tom de deboche:

- Se liga, dona! (sic) O mundo é dos "espertos"!

Ela, que no geral era tranquila, estava diante de uma das situações que mais detestava. Poucas coisas, de fato, a tiravam do sério. Uma delas era a má educação das pessoas. Não foram poucas as vezes que discutira por tal motivo. Nem seria a última. O comportamento daquele homem era-lhe inadmissível e ela não deixaria "barato":

- É verdade. - retrucou Janine. O mundo é mesmo... "dos espertos", como você diz. O problema é que vovó dizia que toda esperteza tem fim, às vezes rápido, às vezes trágico. Então, boa sorte. E, antes que me esqueça, "dona" é a senhora sua avó!

Ele, que até então sustentava no rosto o cínico sorriso dos desavergonhados, franziu o cenho e tornou a olhar, com desprezo, para Janine:

- Vá se danar! - disse, dando as costas.

Embora sentisse a alma ferver, ela engoliu o ódio e não desviou os olhos do homem que então se dirigia ao caixa. Quando este alcançou a porta da padaria, já à calçada, ela arrematou, num tom grave, porém cristalino, de modo que todos ali pudessem ouvir:

- O inferno está próximo e você está na beirola! Tenha cuidado, espertalhão!

Ele ouviu e, sem interromper os passos, olhou para trás, enfurecido:

- Ora, vá se fod...

Mas não chegou a completar a frase. Um veículo de passeio desgovernado avançou pela calçada e colheu o sujeito, ali mesmo, à porta do estabelecimento. A colisão se deu com tamanha violência que fez o corpo dar uma volta completa em torno de si e cair de barriga, estático, sem vida. Como que por milagre só ele fora atingido, ninguém mais. Foi o que constatou o grupo de curiosos que logo se dispôs a conjeturar sobre as causas do ocorrido.

Elisa, a atendente, retrocedeu dois passos, por detrás do balcão, enquanto olhava para Janine com pavor. Vira a cliente murmurar para si mesma, como se a orar, ou a invocar um feitiço, pouco antes de aquele homem alcançar a porta da padaria. Ou não vira? Já duvidava de si, tamanho o medo que lhe acelerava o pulso. Estava confusa e não confiava nos próprios sentidos. Mas estava convicta de que ouvira a cliente pronunciar a palavra "inferno". Foi o bastante para fazê-la apertar nas mãos o terço que trazia consigo. Em seus olhos, era possível ler o que lhe estava claro: fora a cliente quem provocara a tragédia!

Janine, percebendo o terror que se apoderava da mulher, repreendeu-a, com o indicador em riste e firmeza na voz:

- Não olhe para mim desse jeito! Eu não interfiro nas coisas de Deus!

Mas a atendente não se convencera. Religiosa que era, tratou de acender duas velas, ao chegar em casa: uma, para a alma que subira; outra, para afastar de si a bruxa que, tinha certeza, amaldiçoara aquele infeliz.

(de Francisco Filardi - inspirado no livro "A arte de ser leve", de Leila Ferreira, Principium/Editora Globo, 13ª reimpressão, 2015)