domingo, 13 de março de 2011

VINIL, O FUTURO INCERTO

Há cerca de dois anos, a discussão sobre o retorno da comercialização de discos de vinil1 no mercado brasileiro voltou a pauta, com a reativação da única fábrica do produto na América Latina (a Polysom, sediada em Belford Roxo/RJ). Venho acompanhando opiniões de pessoas ligadas ao meio, com interesse e um certo distanciamento, por isso arrisco-me a deixar aqui a contribuição de um leigo ao tema.

Em agosto de 2010, Jô Soares entrevistou em seu programa dois profissionais2 da indústria fonográfica, os quais com a proposta de “demonstrar a superioridade do áudio reproduzido pelo vinil”. O experimento consistiu na execução simultânea de uma mesma faixa por meio de um toca-discos (Technics), de um leitor de CD (Pioneer) e de um reprodutor de MP3 (Ipod); para a leitura dos dados foi utilizado um osciloscópio (instrumento eletrônico que fornece gráficos bidimensionais na medição de variações de potencial). Ao final do teste, os gráficos indicaram uma diferença aparentemente não significativa entre os sons reproduzidos por vinil e CD, fato que interessará somente a técnicos, a músicos e a audiófilos exigentes, não à massa de consumidores.

Hoje, emergem opiniões consensuais entre os do ramo (leia-se: “ação orquestrada” da indústria fonográfica), para convencer o consumidor de que a qualidade do áudio reproduzido pelo vinil é melhor. Tecnicamente o é, mas cabe lembrar que esse não foi o discurso que se ouviu há 28 anos, quando o CD foi introduzido no mercado brasileiro. Defendia-se à época o tamanho reduzido, a facilidade no transporte, o desgaste mínimo e o som "cristalino" da nova mídia, livre dos chiados, “pulos” e estalidos do vinil.

Entre 1983 e 1996, ambos (vinil e CD3) foram concorrentes no mercado brasileiro, até que a indústria fonográfica optou por “matar” a velha mídia em 1997. Então, por que a indústria hoje “conclui”, após um hiato de quatorze anos, que o som do vinil é melhor? Seria o simples atendimento à antiga reivindicação de admiradores do formato? Não. Não creio na “benevolência” da indústria fonográfica. A razão para o recente incensamento do vinil cabe em uma palavra: dinheiro. Ou melhor, contrafação4.

Ironicamente, a sempre "lacrimosa" indústria fonográfica julga ter encontrado no retorno do vinil a “solução mágica” para livrá-la da progressiva queda em sua margem de lucros anual, ao tempo em que acusa o CD de reproduzir um "som metalizado". Ou seja, empresários do ramo (leia-se: indivíduos que gostam de dinheiro, não de música) creem em que a recomercialização do antigo formato seja o ideal para minimizar prejuízos históricos e cortar os tentáculos do terrível “monstro” (contrafação) criado pela própria indústria.

Mesmo considerando o disco de vinil um produto bem acabado, rico nas artes das capas e no detalhamento dos encartes, entendo haver hoje vários inconvenientes para o seu retorno:

1º) Ocupam espaço demasiado5;

2°) Acumulam poeira6;

3°) Consomem tempo, devido a necessidade de limpeza periódica7;

4°) Arranhões na superfície do disco e sua exposição ao calor podem comprometer o produto, o que significa dizer que seu tempo de vida útil é bem menor em relação ao do CD;

5°) Não me parece sensato a indústria relançar em vinil discos que foram lançados originalmente nesse formato, como o "Tempos modernos", de Lulu Santos, ou o "Nós vamos invadir sua praia", do Ultraje a Rigor, posteriormente relançados em CD. Seria um teste para a paciência (e para o bolso) do consumidor reagir às oscilações tecnológicas do mercado;

6°) O consumidor se disporá a pagar o elevado preço de um toca-discos e a incluir agulhas de reprodução em seu orçamento mensal? Não é demais lembrar que agulhas sofrem desgaste e necessitam de ser substituídas regulamente;

7°) A tênue justificativa da indústria fonográfica, que deseja “oferecer uma alternativa a mais ao consumidor”. Se a assertiva fosse verdadeira, o vinil não teria sido banido do mercado nacional e arrastado para o limbo centenas de lojas de discos. Isso não passa de manipulação da indústria fonográfica.

8°) Acreditar em que a reintrodução das “bolachas” no mercado nacional freará a contrafação é uma ilusão amadorística8;

9º) A geração MP3 (apesar das perdas ocasionadas pela compressão do áudio, a portabilidade e o compartilhamento proporcionados pelo formato são os ganhos reais para o consumidor).

Do ponto de vista mercadológico, minha visão não se alinha ao que está aí. Da maneira como está sendo proposto, o retorno do vinil é inviável. Porque será apenas o retorno de um produto e não da experiência vivenciada como um todo, sobretudo nos anos 70 e 80. Bandas e cantores como Pseudo Echo, Then Jerico, Giant, Peter Kent e muitos outros artistas, não lançados em CD no Brasil, podiam ser facilmente encontrados em vinil9, à época. Mas a pluralidade de títulos (vantagem competitiva do vinil em relação ao CD) não mais existirá10.

Outras questões oportunas são as seguintes:

  1. Quanto tempo o vinil resistirá ao barateamento de shows comercializados no formato blu-ray11?

  1. Ainda que a indústria fonográfica “mate” oficialmente o CD, a exemplo do que fizera com o vinil em 1997, a música deixará de circular de forma clandestina?

Apesar destas considerações, é provável que o mercado, de modo geral, seja simpático ao retorno do vinil. Mas se a experiência será válida, de fato, só o tempo dirá.

1 Também conhecidos como LP (long play), 12” ou "bolachas". Textos explicativos sobre o formato podem ser consultados nos endereços: Gramaphone Record e Vinil na Veia.

2 A entrevista está disponível no YouTube, em duas partes, sob o título “Jô Soares entrevista João Augusto e Rafael Ramos – 26/08/2010”. Ambos, pai e filho, pertencem à gravadora Deckdisc, responsável pela reativação da fábrica Polysom. João Augusto é ex-diretor geral da Virgin Records. Já Rafael Ramos, foi integrante da finada banda de pop adolescente Baba Cósmica;

3 Embora custasse menos do que o vinil, o CD foi comercializado a preços exorbitantes desde o seu lançamento. Só a partir da segunda metade da década de 2000, com o declínio nas vendas (em parte motivado pela rápida ascensão do formato MP3), é que os preços do CD despencaram para entre R$10,00 e R$15,00;

4 O termo é definido na Lei n° 9.610/98 (de Direitos Autorais) como "reprodução não autorizada”, a popular "pirataria";

5 Empreendimentos imobiliários lançados nos últimos anos no Rio de Janeiro dispõem de metragem média em torno de 50m², 55m²; logo, a necessidade de adequado aproveitamento do espaço interno nas novas unidades imobiliárias certifica a inviabilidade da manutenção de coleções;

6 Cerca de 30% da população brasileira é alérgica, segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (2009);

7 Que consumidor, em tempos de internet, orkut, messenger, facebook, second life e twitter, passará o fim de semana banhando e polindo seus discos de vinil?;

8 O quê impedirá o falsário de copiar um vinil, de submeter a gravação a um programa redutor de ruídos, de converter o arquivo, de gravá-lo em CD e de distribuí-lo à monta? Será que a indústria imagina algo diferente? Será que a indústria desconhece que os toca-discos da Lakewood, da Crosley, da Mississipi, da Ion, da Omni e da Woodburn, com conexão USB e conversor em MP3, já são comercializados no Brasil?;

9 O vinil só sobreviveu de fato por obra de colecionadores, radialistas e discotecários americanos e ingleses (embora seja irônico afirmar que os DJ amam o vinil, pois são eles os que mais maltratam os discos com a prática do "scratch" (deslizamento da agulha sobre a faixa, num ir e voltar rápido para provocar efeito sonoro). No Brasil, foi tratado como “item de antiquário”, mantido pelo comércio de rua (ambulantes) e por pequenas lojas segmentadas;

10 Considerando a “crise” da indústria, os empresários só arriscarão a comercialização de artistas rentáveis. Talvez os “sebos” de discos disponibilizem alternativas mais atraentes para os consumidores. Mas não há garantia de que isso ocorra;

11 Cabe lembrar que o vinil reinou por décadas sem concorrência. As fitas de polietileno (revestidas por óxido de ferro ou dióxido de cromo), conhecidas informalmente como fitas cassete, eram mídias de baixíssima qualidade, não devendo ser enquadradas como concorrentes do vinil. Hoje, a briga por fatia do mercado envolve mídias diversas de alta qualidade.


Francisco Filardi

Um comentário:

  1. O importande é a musica e não o formato que ela está gravada, e o formato dependerá apenas da facilidade de encontrar a musica que queremos.

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