quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O "CHINA", DE FRANCISCO FILARDI




Meu primeiro contato mais imediato com a morte se deu quando eu tinha dez para onze anos. O ano era 1976. À época, eu cursava a antiga quinta série do curso ginasial (hoje, sexto ano do ensino fundamental), num colégio situado na rua Conde de Bonfim, no bairro da Tijuca. Essa unidade de ensino viraria cinzas pouco mais de três anos depois, demolida pela irrefreável marcha do progresso. Para nós, alunos, uma grande tristeza. Mas houve outras, tão significativas e indeléveis quanto.

Na minha sala, estudava o também pré-adolescente Adilson, apelidado “china” devido aos olhos um tanto puxados. Tanto eu quanto ele fazíamos parte de uma meia dúzia que se reunia na hora do recreio, ou mesmo antes das aulas, para jogar futebol de chapinha no pátio (não na quadra de esportes), nos dias em que o inspetor escolar (de nome Jesus!) não nos liberava a pelota. O futebol de chapinha, para os que não estão familiarizados com a expressão, não precisava de muito: apenas uma tampinha de refrigerante, dois pares de camisas ou de mochilas, para delimitar as áreas correspondentes às traves, e um bando de moleques fedorentos correndo para cá e para lá, atrás da tal chapinha. Quando nos sobrava um dinheirinho, íamos até a papelaria do “seu” Moreira, que ficava em rua próxima do colégio, para comprar bolas de borracha coloridas (dessas que cabem na palma da mão), fabricadas pela Mercur, para a mesma finalidade. Não faço ideia de quantas bolas perdemos para a Conde de Bonfim (que corria paralela ao pátio), mas essa era uma das muitas diversões que amávamos e hoje recordamos com imensa gratidão e saudade.

Lembro-me bem do “china”: gago, de baixa estatura, cabelos claros e encaracolados (como devem ser os de um anjo, suponho), a pele bem alva. Trazia consigo uma maleta com alça, conhecida como “007” (moda, à época), contendo, além do material escolar, um sanduíche caseiro, feito com pão de forma, ou um pacote de biscoitos Mirabel. Era sorridente e muito querido. Estava sempre conosco e participava ativamente tanto das atividades curriculares (sobretudo, das aulas de educação física) quanto das deliciosas bagunças que aprontávamos quando não havia aula.

Se a memória não me trai, aconteceu no mês de agosto. O avô do “china” era colecionador de armas de fogo. Se havia sido militar, não sabíamos, pois Adilson nunca nos contou. Mas é fato que seu avô as tinha em casa. Um absurdo. A notícia chegou à escola, sendo levada ao conhecimento da professora Marisa, de Estudos Sociais, que a essa altura lecionava para a nossa turma: na véspera, Adilsinho estava a ajudar o avô a limpar um revólver da coleção, quando um de seus dedos prendeu-se no gatilho. Na tentativa de desvencilhar-se, a arma, que estava estupidamente carregada, disparou, atravessando o coração do meu amigo. A morte lhe veio imediata. Quando a história vazou para a turma, fui tomado por um misto de perplexidade, indignação e incredulidade. Como ele não poderia estar mais entre nós, se na véspera ele havia assistido às aulas conosco? Como?! Foi essa a primeira vez que percebi o quanto a morte era absurda (e injusta). Mas não consegui chorar. Não ali.

Ao chegar em casa, fui direto para o chuveiro; lá, sim, desabei num choro incontido. Queria que a água corrente livrasse meu coração daquelas lágrimas cheias de tristeza e saudade, que as levasse para longe. Meus pais nunca souberam disso. E foi por mera vergonha. Não queria que me vissem chorando.

O que isso custou a um meninote de apenas dez anos só um psicólogo me poderá dizer. O fato é que lá se vão quarenta anos. Talvez o pequeno “china” tenha-se tornado mesmo um anjo. Assim espero.

(verídico - Francisco Filardi)

3 comentários:

  1. Que texto bonito Filardi! Repleto de emoção e recordações. Embora não gostes muito, no filme Conta Comigo há uma frase que citam no filme onde dizem que jamais encontraremos amigos iguais aos que tínhamos quando estávamos no colégio. Ingenuidade boa de uma época onde achamos que o mal não nos atinge até a vida nos dar uma bofetada. Gostei muito.

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    1. Muito grato, Pathy! De fato, não apreciei o filme, mas quando vivemos a época da escola não fazemos ideia do quão marcante é. Sem dúvida, a melhor fase de nossas vidas! Beijo imenso!

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