O Brasil vive uma pandemia silenciosa e persistente: mulheres assassinadas simplesmente por serem mulheres. Trata-se de um projeto estrutural alimentado pela desigualdade de gênero, pela impunidade e pela omissão, em algum medida, do Estado. Quando uma mulher denuncia e não é acolhida; quando politicas públicas são reduzidas a campanhas esporádicas; quando a violência doméstica é relativizada; quando a sociedade insiste em culpabilizar a vítima, construímos, tijolo a tijolo, o caminho que leva ao assassinato.
O que mais se registra é uma falta de rede de acolhimento contínua financiada, formação adequada para agentes públicos, julgamentos céleres rigorosos e, sobretudo, educação de gênero desde a infância, condição indispensável para desmantelar a cultura de dominação masculina que legitima o controle, o silenciamento e, por fim, a eliminação de mulheres.
Não basta lamentar as mortes nem as estatísticas. É preciso reconhecer que cada feminicídio é um fracasso coletivo, do Estado, das instituições, da sociedade e de todos que se calam. O Brasil precisa decidir que futuro deseja: continuar empilhando corpos femininos ou finalmente assumir que proteger mulheres é proteger a própria democracia e a história de cada um de nós. Não existe neutralidade possível. A indiferença também mata e tem matado. Basta de apenas nos chocarmos e depois esquecermos, até o outro relato macabro.
Impressiona também a onda de intolerância religiosa no Brasil. Atentados à laicidade do Estado não se conciliam com a construção de uma sociedade livre e justa. Não se pode tratar esse assunto como aparato de retórica, mas, de compromisso cidadão, que expressa o ideal de boa convivência entre diferentes, na certeza de que só assim se pavimenta uma verdadeira civilidade naquilo que deve ser compromisso de uma nação. Quando alguém é humilhado, discriminado, agredido devido a sua cor ou a sua crença, ele tem seus direitos humanos violados e isto impacta na cidadania, na construção da democracia, que
deve ser sempre preservada.
Precisamos de mais ação e menos discurso, mais efetividade e menos superficialidade. Muito se caminhou até este 21 de janeiro [de 2026], desde 2007, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, instituído por Lei, mas ainda há um longo percurso coletivo a ser construído, quando suas portas estiverem escancaradas, onde o laico seria óbvio, vivenciada a fé na natureza, de forma confortável, com sua dinâmica hospitaleira, sua culinária, musicalidade e religiosidade.
* Cosme Custódio é nosso correspondente de longa data, editor do longevo fanzine "O Garimpo", de Salvador/BA, a quem agradecemos a oportunidade e a gentileza.

Nenhum comentário:
Postar um comentário