“Alma
Brasileira”: um livro sensível e verdadeiro
como a poesia deve ser
Por
Rogério
Salgado
*
Eduardo Waack, na Biblioteca Municipal Maria de Lourdes Lian, em Matão/SP,
para o lançamento de "Alma Brasileira" - 21.05.2026. Foto de Eliseu Batista.
Conheci
Eduardo Waack na década de 1980; na época eu, Wagner Torres e
Virgínia Reis éramos editores da Revista Arte Quintal, uma
referência nacional naqueles anos pós ditadura militar e trocávamos
(nós e ele) notícias através de correspondências postais. São,
portanto mais de 40 anos de atividades minhas e dele. Recebo agora
seu último livro “Alma Brasileira” o qual li num só gole, como
quem se delicia com um bom vinho.
“Alma
Brasileira” traz um poeta desnudo de todos seus sentimentos nessa
vivência cotidiana em que ele caminha, jurado e abraçado com a
arte, principalmente com a poesia. Seus poemas doem quando fala de si
e de suas lembranças, como em “Barretos 2017” onde revela sua
experiência dentro de um hospital, mas sem nunca perder as
esperanças: “Voltando ao Hospital /
para uma nova consulta. / O murmurinho de sempre. / Alguns estão,
outros não. / (...) / Entrei na fila do lanche: / Tomei o café e
comi o pão. / Passeei pelos corredores silenciosos, / Embora
apressados, da Hematologia. / (...) / Aguardo
o resultado do hemograma /
Assisto a televisão desfocada / Depoimentos de canalhas e corruptos
/ As mesmas tragédias de sempre / O Brasil está nesta sala / A
recepção é acolhedora / A estrada estava movimentada / Gratidão
por mais este dia.”
Mais
à frente, num outro poema, o poeta observador que é, se diz
assustado com “o uníssono das vozes ressentidas nos grupos de
oração e a fingida contrição dos beatos de plantão”, uma
realidade nesses tempos atuais, onde a fé é vendida não a preço
de banana, mas a preço de ouro. E segue... “Sinfonia Incendiária”
revela o mundo de hoje, que muito das vezes passa despercebido dos
que tem algo mais importante pela frente, como por exemplo, crescer
seus dividendos. Aqui, o autor não faz concessões e se joga numa
verdade que em alguns poemas serve como uma porrada na cara de quem
vive de ilusões e creio que a poesia nos dias de hoje, merece ser
uma bandeira desfraldada, não em posições politicamente
partidárias, mas sim humanamente humanas e a função do poema é
dizer em denúncias, por mais lírico ou não que os poetas possam
ser, pois omitir-se seria estar concordando com os erros que
cometemos nesta vida. Exemplo é o romântico Vinícius de Morais que
delatou verdades em seus poemas “O operário em construção” e
“Rosa de Hiroshima”, Ferreira Gullar em “Não cabe no poema”
e Manuel Bandeira em “O bicho”.
E
nesse emaranhado de versos diretos ao leitor, fala de saudades com um
lirismo de rara beleza, como quando diz: “Eu tive uma mãe um dia /
Que me acarinhou, tomou nos braços, / Protegeu na noite escura. /
Essa mulher valente, bela e sorridente, / Permanece comigo
nas fotografias /
Que trago na mente e no coração. / (...) / E essa mulher que
atravessa os anos e pergunta quem sou / E adentra como uma catedral o
esfraldar do tempo / E ressurge das cinzas revigorada é a mãe que
eu tive / De mãos macias, cálidos olhos, cantando / As minhas
cantigas de ninar com uma boneca no colo / Sem roupa e amassada,
cabelos de plástico / Muda como o breu profundo.”
“Alma
Brasileira” como revela seu autor, é um livro sofrido, pois
registra fatos e acontecimentos reais na vida de quem o escreveu. São
momentos marcantes, desabafos e tudo o que habita o coração do
poeta. Mas apesar de tudo, há momentos para o romantismo, o amor,
quando diz para quem se ama: “Quero partir antes de ti /
Na imensidão
de uma manhã de inverno /
Deixar a casa cheia de lembranças e um livro aberto. / Eu te mostrei
o caminho / Tu me ensinaste a caminhar. / Eu te contei uma história
sem nexo / E em ti os sonhos se realizaram. / (...) / Em ti deitei e
fiz meu ninho / Quero partir como as alegres andorinhas / Que voltam
no verão seguinte / Te encontrar na imensidão ensolarada / À beira
do oceano de nós dois entregues / Sem rumo, horário ou permissão.
/ Quero morrer em teus braços / Num abraço firme, meigo,
encorajador / E, ao dormir um sono eterno / Ser teu companheiro
noutra morada / Noutro cais, habitar um navio fantasma / Singrando os
mares da paixão e da loucura.” Por fim, poeta de coração aberto,
faz uma bela, sensível e emocionante homenagem ao bailarino
e coreógrafo
Igor Xavier (1972-2002), artista de Montes Claros (MG) cuja vida foi
tragicamente interrompida aos 29 anos, num caso de homofobia que
mexeu com o país: “Nesta cidade aconteceu um crime /
Que tornou cinza o céu de então / E as luzes apagadas em meu
coração / São apenas dor, luto e solidão. / Uma mãe chorou
desesperadamente / O seu brado, sua ira e cantochão / E se no palco
uma luz desvaneceu / No imenso firmamento uma estrela fulgurou. /
(...)”

O
livro abre com o poema “Alma” e encerra com o poema “Brasileira”,
poemas esses que falam em metáforas, de uma vida e de um país o
qual vivemos, apesar de tantos dissabores de quem deveria cuidar
melhor dele.
“Alma Brasileira” teve lançamento nacional em maio deste ano na
Biblioteca Municipal “Maria de Lourdes Lian”, em Matão (SP),
cidade onde o autor reside. Também neste mesmo mês, o livro foi
apresentado na Escola Técnica “Sylvio de Mattos Carvalho / Etec e
em junho, completando o lançamento e integrando o Projeto “Seara
das Palavras”, será apresentado na Associação dos Deficientes
Visuais de Matão (Adevima). Sua edição foi patrocinada pelo
Ministério da Cultura, em projeto realizado com suporte do Programa
Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) através da Lei Federal de
Incentivo à Cultura / Lei Rouanet e contou com fotografias de Simone
Detoni e prefácio de Marlene Xavier, da Associação Sociocultural
Igor Vive.
Segundo
relato do autor: “Havia pensado em fazer a capa como uma referência
e uma homenagem ao disco London Calling (1979), do The Clash, que por
si já era uma homenagem ao primeiro LP de Elvis Presley (1956).” A
imagem da capa é de autoria da fotógrafa paranaense radicada em São
Paulo, Simone Detoni. Eduardo explica: “Ela registra um momento
controvertido da história contemporânea brasileira, pois foi
realizada no dia da decretação do lockdown em São Paulo, 21 de
março de 2021, referente à pandemia de covid-19. Foi um dia de
intensa movimentação, as pessoas sendo retiradas... Ela foi feita a
partir da Catedral da Sé, com duas pessoas observando. Um homem e
uma mulher que representam a própria nação brasileira, observando
os acontecimentos... Esta foto possui várias camadas de
interpretações. Vemos ao centro da capa, o Marco Zero de São
Paulo, local de grande simbologia e significado.”
Lançamento de "Alma Brasileira" na Escola Técnica “Sylvio de Mattos Carvalho” / Etec em Matão (SP) - 27/05/2026
Nascido
em 1964, ano fatídico do acontecimento de um golpe militar neste
país, Eduardo Waack publicou seu primeiro livro individual de poemas
“Canções do Front” em 1986, porém desde 1979 tem seus textos
impressos em revistas, jornais e antologias literárias no Brasil e
no exterior. É o criador do jornal O Boêmio (cultura popular
independente & evolucionária). Tem publicado, entre outros: “A
gota de orvalho suspensa na flor reflete o universo” (2013), ”Os
guerreiros medievais têm medo de automóvel e liquidificador”
(2014), “Daquilo que se pode dizer” (2017), “Caderno de Viagem”
(parceria com José Roberto Garbim, 2020), “O Rei e Eu” (2021),
”Os Povos Nativos” (com Nimuendaju Oliveira, Ipojucã Vilas Boas
e Marluí Miranda, 2022), “Essência Poética” (com Chico Silva,
2022), “Somos filhos dessa terra” (também com o artista-plástico
Chico Silva, 2023) e “Reunião” (2024).

“Alma
brasileira” é um livro forte e terno ao mesmo tempo, desses que a
gente lê e busca refletir. Seu autor não faz concessões ao
escrever o que lhe vem no íntimo, por isso é sim, um livro
autêntico em sua essência e que merece ser lido por todos que ainda
tem alguma sensibilidade na alma. “Alma Brasileira”: um livro
sensível e verdadeiro como a poesia deve ser.
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Poeta com 51 anos de carreira literária, Rogério
Salgado
reside em Belo Horizonte (MG). Seu mais recente livro é “Antes que
a Lua enfarte”, lançado em janeiro de 2024.
Eduardo Waack, à direita, e Rogério Salgado, autor desta matériaMais sobre o lançamento em: "Alma Brasileira".