Nossa turma é assim. Torcemos pelo bem estar de todos e suas realizações, vibramos com suas vitórias e conquistas, e, nos momentos desafiadores, procuramos estar juntos, demonstrando carinho, preocupação, e transmitindo mensagens de otimismo e superação. (p. 332)
Páginas viradas, de Tania Marques, publicado em 2025 pela Editora Salva, do Rio de Janeiro, é um relato apaixonado de uma trajetória de vida, escrito aos 73 anos de idade. Mais do que uma obra de pretensões literárias, o livro se apresenta como um testemunho pessoal, uma reunião de lembranças, experiências, afetos, perdas, conquistas e descobertas que compõem uma existência vivida com intensidade, coragem e fé.
O próprio título sintetiza uma das ideias fundamentais da obra: a vida é feita de páginas que se sucedem e que, uma vez viradas, não deixam de fazer parte da história de quem as viveu. Tania revisita essas páginas sem esconder as dificuldades encontradas pelo caminho, mas também sem permitir que elas obscureçam o sentimento de gratidão pela oportunidade de viver. Sua principal característica é a obstinação — a disposição de não esmorecer diante das adversidades e de seguir adiante, aproveitando as oportunidades que surgem e procurando não desperdiçar as possibilidades que a vida oferece. A curiosidade, entendida de maneira saudável e como estímulo permanente para conhecer pessoas, lugares e experiências, também ocupa lugar importante nessa trajetória.
As primeiras páginas conduzem à infância, marcada por travessuras, namoricos e pela boa relação com os pais: um pai militar, gaúcho, e uma mãe servidora pública, piauiense. As lembranças familiares convivem com períodos de dificuldades financeiras e com a mudança de residência de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, para Olaria, na Zona Norte. São episódios aparentemente cotidianos, mas que, reunidos, ajudam a compreender a formação de uma personalidade acostumada a enfrentar mudanças e a adaptar-se às circunstâncias.
A vida adulta é apresentada como uma sucessão de desafios e experiências profissionais bastante diversificadas. Antes de concluir a faculdade de Medicina, Tania trabalhou como costureira, vendedora de bijuterias, proprietária de lanchonete e expositora de artes plásticas. A trajetória não foi linear nem fácil, mas revela uma mulher disposta a trabalhar, aprender e buscar novos caminhos até alcançar a profissão que exerceria até a aposentadoria. Mesmo depois de estabelecida profissionalmente, a inquietude e a curiosidade permaneceram presentes.
As memórias também registram situações menos agradáveis da vida doméstica, como a dificuldade de encontrar pessoas honestas para trabalhar em sua residência, depois de experiências envolvendo diversos furtos. Em contraposição a essas decepções, surgem as artes, os prazeres e as afinidades pessoais: o teatro, a dança, a pintura, a confecção de mandalas e o talento para o baralho cigano. O universo doméstico é ainda marcado pela afeição da família por cães e gatos, companheiros que ocupam seu próprio espaço nas lembranças.
Entre as páginas mais dolorosas estão aquelas dedicadas às perdas de entes queridos. A autobiografia, contudo, não se detém apenas naquilo que foi perdido. Ao lado das ausências, Tania destaca a construção de um sólido núcleo familiar, formado pelo marido, Nilton, pelas três filhas, Paula, Tatiana e Natália, e pelos quatro netos, Joana, Davi, Rita e Eduarda. As animadas festas em família aparecem como momentos de celebração dos vínculos construídos ao longo dos anos e como demonstração concreta de que, para a autora, a família constitui uma das maiores realizações de sua existência.
As viagens representam outras importantes páginas dessa história. No Brasil, estão presentes a Amazônia, o Pantanal — inclusive em passeio de barco —, as praias do Nordeste, o Espírito Santo, com especial lembrança para sua moqueca capixaba, além de Balneário Camboriú, Paty do Alferes e Miguel Pereira. No exterior, as experiências incluem os Estados Unidos, o Leste Europeu, a África do Sul e a Grécia. A essas experiências soma-se o refinado gosto por restaurantes e pela boa comida, outra forma de aproveitar os prazeres que a vida proporciona.
Ao percorrer essas memórias, Páginas viradas constrói, sobretudo, um inventário afetivo. Não se trata de uma autobiografia destinada a exaltar feitos extraordinários ou a oferecer uma trajetória exemplar em sentido convencional. Sua riqueza está justamente na variedade das experiências pessoais: infância, família, trabalho, dificuldades, amores, perdas, artes, animais, viagens, gastronomia e pequenas e grandes descobertas acumuladas ao longo de 73 anos.
Assim, o livro pode ser compreendido como uma mensagem destinada principalmente às futuras gerações da família. Ao registrar suas lembranças, Tania preserva uma parte de sua própria história e, ao mesmo tempo, oferece aos descendentes um retrato das circunstâncias, escolhas e experiências que contribuíram para formar a mulher que chegou à maturidade. É um gesto de memória, mas também de transmissão.
No fim das contas, Páginas viradas é uma declaração de amor à própria existência. Suas páginas revelam uma mulher que enfrentou dificuldades sem se deixar vencer por elas, que procurou aproveitar as oportunidades, cultivou curiosidades e afetos, construiu uma família, conheceu diferentes lugares e soube encontrar prazer nas experiências mais diversas. Aos 73 anos, a autora transmite a sensação de haver cumprido com dignidade sua missão de vida. E é justamente essa percepção — acompanhada de coragem, fé e, acima de tudo, gratidão — que dá sentido à obra.
Francisco Filardi

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